Sinistralidade dispara no arranque de 2026: Docentes da UMinho apontam comportamento humano como causa central

Elisabete Freitas, do Departamento de Engenharia Civil, Jorge Martins, professor aposentado de Engenharia Mecânica, e Ângela Maia, da Escola de Psicologia, analisam aspetos que justificam o agravamento dos casos mortais nas estradas portuguesas.

O arranque de 2026 fez-se acompanhar pelo agravamento da sinistralidade rodoviária e o consequente aumento de mortes e ferimentos em acidentes nas estradas nacionais.

Os comportamentos de risco são identificados pelas autoridades e pelos investigadores da Universidade do Minho (UMinho) entrevistados pela RUM como motivos centrais para a sinistralidade e o registo de tantas mortes nas estradas portuguesas.

Os números não são encorajadores. Entre os dias 9 e 11 de janeiro, ocorreram 566 acidentes em Portugal continental, com nove mortes registadas pela GNR. Braga foi um dos distritos que mais casos registou, 25.

Semanas antes, na operação de Natal e Ano Novo (entre 18 de dezembro e 4 de janeiro), a PSP e a Guarda deram nota de 6038 acidentes rodoviários em Portugal, que resultaram em 38 vítimas mortais, 127 feridos graves e 1643 ligeiros. Trata-se de um agravamento face ao rescaldo da operação de 2024/25, que registou um total de 25 mortes.

Uma rede Rodoviária fortalecida

O número de ocorrências nas estradas nacionais levanta questões sobre a qualidade das estradas nacionais. Ainda assim, Elisabete Freitas, professora do Departamento de Engenharia Civil da UMinho, rejeita que haja uma relação entre o estado das infraestruturas rodoviárias e o número de acidentes.

Alerta, por outro lado, que é exatamente nas melhores condições de circulação que os condutores aumentam a velocidade.

O mau tempo e os comportamentos adotados pelos condutores em períodos de chuva são questões levantadas pela docente. Nestes casos, “as condições de atrito baixam drasticamente e as distâncias de paragem passam a ser muito maiores”, aspeto esse que, para Elisabete Freitas, deve ser sempre considerado por quem utiliza as estradas.


Veículos mais seguros, comportamentos mais imprudentes

Compreender o aumento dos casos implica perceber o impacto que os próprios veículos possam ter, aponta Jorge Martins. O antigo professor do Departamento de Engenharia Mecânica da academia minhota destacou os esforços recentes da indústria automóvel em tornar os carros mais seguros. Os motociclos, contudo, “não são desenhados para prevenir acidentes”, ressalva, que para o antigo docente poderia justificar o agravamento da sinistralidade nas estradas, apesar das melhorias nos sistemas de airbag e nos capacetes.

Os sistemas de travagem mais modernos fazem-se sentir, acima de tudo, nos veículos de quatro rodas, que permitem abrandar e, ao mesmo tempo, manter o controlo da direção. No caso das motas, explica Jorge Martins, dá-se outro problema.

Entre janeiro e outubro de 2025, a GNR registou 6616 acidentes a envolver motociclos, que resultaram em 98 mortos, 547 feridos graves e 4822 feridos ligeiros.

Com os avanços tecnológicos surgiram novas soluções que permitem mitigar o problema nos veículos de duas rodas. A medição do atrito entre o pneu e a estrada permite, hoje, fazer uma travagem mais segura e controlada.

Mudanças drásticas nos automóveis podem ser implementadas, mas, para o docente, são pouco rentáveis para a indústria e pouco apelativas aos compradores, dando o exemplo de limitar a velocidade máxima de fábrica nos 120 km/h. A tendência volta-se, então, para o sentido oposto, com carros a serem desenvolvidos com cilindradas muito baixas e potências altas, permitindo velocidades máximas superiores a 200 km/h.

O problema, aponta, não está nas componentes técnicas dos veículos, mas sim nos comportamentos adotados pelos condutores. A posição das mãos e as abordagens nas curvas trazem preocupação ao docente da UMinho.


O stress pós-traumático

É nos acidentes de automóveis que está a principal causa para perturbações traumáticas na maioria dos países ocidentais. A essa questão juntam-se a lentidão dos processos judiciais e as lesões físicas, aspetos que funcionam como “lembretes” do momento trágico.

Estes elementos são ressalvados pela professora Ângela Maia, da Escola de Psicologia da UMinho, que salienta o facto de ser “muito difícil deixar no passado uma coisa que tem sintomas no presente”, levando a que o trauma psicológico se prolongue por um período mais extenso.

Ainda assim, o contexto nacional já foi pior. No arranque dos anos 2000, os números apontavam para as duas mil mortes em Portugal, o segundo da Europa com mais vítimas mortais, apenas atrás das Grécia. Trata-se de um período caracterizado pela docente como a “Guerra Civil portuguesa”.

Os valores assinalados na primeira década do novo miléno apenas foram travados com o aumento das penalizações e as melhorias na sinalização. Os aperfeiçoamentos técnicos nos veículos e o reforço na rede rodoviária foram, também, elementos que contribuíram para a descida dos acidentes nas estradas nacionais.

Ainda assim, numa análise que compara os dois últimos anos, a tendência tem sido de agravamento da sinistralidade rodoviária. De modo a dar resposta imediata, a prevenção, para Ângela Maia, deverá passar pela utilização de imagens que ilustrem as consequências físicas destes acidentes, já que as mazelas psicológicas são “impossíveis de transmitir”.

Os números são mais preocupantes nos homens, que, afirma a docente, adotam um comportamento “machista” ao associar uma condução menos arriscada a um traço feminino.

“As mulheres, em geral, têm muito menos acidentes graves. É raro uma mulher morrer por comportamentos destemidos.”

O mesmo se verifica nos condutores com habilitação recente, que se deixam guiar por pressões sociais e estereótipos que colocam uma conotação negativa na condução segura. A professora da academia minhota alerta para a ilusão jovem de invulnerabilidade e imortalidade como motivação para uma presença na estrada mais imprudente.

*editado por Marcelo Hermsdorf

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Carolina Damas
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