Médicos alertam para barreiras e atrasos no acesso à saúde de doentes alérgicos

Esta alerta da OM surge num momento de particular intensificação das doenças alérgicas, numa altura em que Portugal continental regista concentrações elevadas de pólen em quase todo o território.

A Ordem dos Médicos alertou esta terça-feira para as barreiras e atrasos no acesso à saúde de quem tem doenças alérgicas e apontou a desatualização da rede de referenciação hospitalar e a não comparticipação da imunoterapia com alergénicos.

Em comunicado, a Ordem dos Médicos (OM) diz que estas “duas falhas estruturais” criam desigualdades e adianta que já informou destas preocupações e pediu medidas urgentes ao Ministério da Saúde, à Direção Executiva do SNS e ao Infarmed.

Lembra que a rede de referenciação existente deveria ter sido revista em 2023, tal como determina a Lei, “mas nada foi feito” e que o atual documento orientador está desajustado face à nova organização hospitalar do Serviço Nacional de Saúde, utiliza dados populacionais antigos e mantém limitações que dificultam a realização de exames e tratamentos.

A OM avisa que estas restrições aumentam as listas de espera, obrigam doentes a “deslocações desnecessárias” e “prejudicam a formação de novos especialistas numa área com carência de profissionais”.

Citado no comunicado, o bastonário da OM, Carlos Cortes, considera que o atraso na revisão da rede de referenciação “está a criar desigualdades e a limitar a capacidade de resposta do SNS” e alerta para a urgência da sua atualização.

“A atualização permitirá corrigir limitações injustificadas e alinhar a organização dos serviços com as necessidades reais dos doentes”, afirma o bastonário.

Além disso, considera ainda urgente resolver o tema da comparticipação da imunoterapia com alergénios, um tratamento que a OM recorda que “não se limita a aliviar sintomas”.

Segundo explica, este tratamento atua na causa da doença alérgica e pode alterar a sua evolução, dando como exemplo a alergia a picadas de abelhas ou vespas, pois “reduz em mais de 90% o risco de reações graves, incluindo anafilaxia”.

A este respeito diz que o facto de a maioria dos doentes ter de suportar todos os custos deste tratamento impede muitos de o iniciar ou manter.

Citado também no comunicado, o presidente do colégio da especialidade de Imunoalergologia, Daniel Machado Oliveira, sublinha que “a imunoterapia é eficaz, segura e evita complicações graves” e defende que a comparticipação do tratamento é “uma medida de equidade e de saúde pública”.

O especialista diz ainda não ser aceitável que um tratamento que previne reações potencialmente fatais esteja acessível apenas a quem o pode pagar.

Esta alerta da OM surge num momento de particular intensificação das doenças alérgicas, numa altura em que Portugal continental regista concentrações elevadas de pólen em quase todo o território.

As doenças alérgicas afetam mais de 30% da população portuguesa: a rinite alérgica atinge cerca de 25% dos portugueses, a asma afeta 7,1% dos adultos – o que corresponde a aproximadamente 700 mil pessoas – e 8% a 9% das crianças e adolescentes.

A OM lembra igualmente que sete em cada 10 doentes asmáticos não têm a doença controlada e aponta estimativas que indicam que entre 75 mil e 150 mil portugueses estejam em risco de anafilaxia, uma reação alérgica grave e potencialmente fatal.

A Organização Mundial da Saúde classifica as doenças alérgicas como uma das epidemias não transmissíveis do século XXI, fenómeno agravado pelas alterações climáticas, pela poluição atmosférica e pelo prolongamento das estações polínicas.

Por tudo isto, a OM defende que a revisão da rede de referenciação e a comparticipação da imunoterapia com alergénios são medidas essenciais para garantir qualidade assistencial, reduzir desigualdades e reforçar a sustentabilidade do SNS e reafirma a sua disponibilidade para colaborar com todas as entidades oficiais.

LUSA

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