Investigadora da UMinho vence Prémio Nacional de Arqueologia com estudo sobre paisagem de Arcos de Valdevez

Clara Lemos venceu o Prémio Eduardo da Cunha Serrão com a sua tese de mestrado sobre a evolução da paisagem agrária em Arcos de Valdevez.
Clara Lemos em entrevista à RUM:

A arquiteta e investigadora Clara Lemos, da Universidade do Minho, é a grande vencedora da edição de 2025 do Prémio Eduardo da Cunha Serrão, galardão que distingue a melhor tese de mestrado em Arqueologia em Portugal. A obra debruça-se sobre a evolução da paisagem rural e militar do Extremo, no concelho de Arcos de Valdevez. O estudo cruza arqueologia, registos documentais e memória oral para reescrever a história de adaptação destas comunidades locais entre os séculos XVII e XIX, mostrando o elevado impacto da interdisciplinaridade na compreensão do território ibérico.


O Reconhecimento de uma Abordagem Interdisciplinar

Natural de Barcelos e licenciada em Arquitetura, Clara Lemos procurou no mestrado em Arqueologia uma forma de alargar a sua visão sobre o planeamento urbano e territorial. A sua tese, orientada por Rebeca Blanco-Rotea e Francisco Azevedo Mendes, intitulou-se “Arqueologia agrária no extremo (Arcos de Valdevez): materialidade e documentação (séculos XVII a XIX)”. O reconhecimento coroa uma jornada de grande dedicação que uniu rigor científico ao interesse pessoal.

“Acredito que conseguimos melhores resultados quando aliamos aquilo que gostámos de fazer ao conhecimento científico e assim podemos contribuir mais para a sociedade. Foi um projeto, acima de tudo, que me permitiu aprofundar os conhecimentos e adquirir novas ferramentas para o meu trabalho profissional.”

Clara Lemos partilha a sua reação à conquista do prémio e a importância de aliar o gosto pessoal à ciência

O foco principal da investigação de Clara Lemos incidiu sobre o lugar da Coutada, na freguesia do Extremo. Este território foi lido pela investigadora como um autêntico “palimpsesto”, onde antigas estruturas militares construídas em pleno século XVII para conflitos bélicos ditaram as marcas físicas nas quais, mais tarde, se assentou a agricultura de subsistência daquela comunidade.

Para desenhar esta evolução histórica, a tese baseou-se numa forte vertente institucional e colaborativa, envolvendo o Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2PT/IN2Past), a Unidade de Arqueologia da UMinho e os consórcios europeus Cultur-Monts e Rurarq. O papel da população da União de Freguesias de Portela e Extremo foi absolutamente vital: os habitantes abriram as portas das suas memórias, fornecendo dados orais inestimáveis sobre sementes antigas, caminhos, socalcos e moinhos.

A experiência de vida e o percurso profissional de Clara Lemos revelaram-se peças indispensáveis para o sucesso desta leitura territorial. Atualmente a exercer funções como arquiteta no Município de Barcelos, a investigadora assume que a imersão nos métodos da Arqueologia potenciam significativamente o seu poder de análise de dados no terreno.

Ao cruzar os vestígios materiais deixados nas fundações da paisagem, as dinâmicas de heranças e os testemunhos etnográficos, a investigadora construiu uma nova lente de trabalho. A arqueologia prova, desta forma, a sua elasticidade enquanto ciência e o seu forte impacto na melhoria do planeamento urbano e territorial das cidades e vilas.

“Este contacto com a arqueologia dá-me outras perspetivas sobre o mesmo território e ajuda-me a encontrar mais e melhores soluções e interpretações para os trabalhos do dia a dia. Acho fundamental este cruzamento interdisciplinar para o qual todas as áreas contribuem. A arqueologia foi mais um complemento ao meu percurso, que me ajuda agora imenso no trabalho profissional.”

O impacto prático e imediato que a Arqueologia trouxe à sua profissão diária

A cerimónia oficial de entrega da distinção nacional decorre no dia 18 de junho, às 18h00, no Museu do Carmo, em Lisboa. O evento será promovido pela Associação dos Arqueólogos Portugueses e presidido por José Arnaud, consolidando o sucesso da UMinho, que já havia recebido o mesmo galardão no ano anterior.

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Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

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