Como a memória e a Arqueologia valeram prémio nacional a investigadora da UMinho

Clara Lemos venceu o Prémio Eduardo da Cunha Serrão 2025 com tese de mestrado que revela os segredos da paisagem rural e militar do Extremo, em Arcos de Valdevez.
Clara Lemos em entrevista ao UMinho I&D:

A arquiteta e investigadora da Universidade do Minho, Clara Lemos, é a grande vencedora da edição de 2025 do Prémio Eduardo da Cunha Serrão. Distinguindo a melhor tese de mestrado em Arqueologia em Portugal, o estudo cruza a arquitetura, a investigação histórica documental e a memória oral para ler a evolução da paisagem do Extremo, no concelho de Arcos de Valdevez. A investigação inovadora revela o profundo impacto que as antigas estruturas bélicas e as práticas agrícolas de subsistência tiveram na moldagem das comunidades locais, provando a enorme importância da interdisciplinaridade


Um Território de Fronteira em Constante Reescrita

Panorâmica da localidade do Extremo DR

O foco principal da tese galardoada incidiu sobre o lugar da Coutada, localizado na freguesia do Extremo. Ao UMinho I&D, Clara Lemos explicou que se trata de um território com “particularidades que têm bastante interesse”, uma vez que se situa estrategicamente “no limite entre as bacias hidrográficas do Lima e do Rio Minho”, numa portela entre duas serras.

Ao cruzar a pacatez da vida rural com as marcas de um passado violento, a investigadora encontrou um autêntico laboratório a céu aberto. Como detalha a arquiteta, “na altura da Guerra da Restauração, foram construídos ali dois fortes militares num ambiente completamente agrário”. Foi a imposição destas estruturas defensivas no meio de terrenos cultivados que tornou “interessante o estudo da relação desta paisagem agrária secular com as confrontações bélicas que ali aconteceram”, obrigando a comunidade a viver, a adaptar-se e a semear no epicentro de um conflito ibérico.

Clara Lemos explica as particularidades geográficas e históricas do Extremo

O Palimpsesto Minhoto: Ler a Paisagem em Camadas

Para desenhar de forma rigorosa esta evolução em que as antigas trincheiras ditaram a fundação de novos socalcos agrícolas, o projeto apoiou-se numa forte vertente colaborativa. A investigação envolveu o Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2PT), a Unidade de Arqueologia da UMinho e os consórcios europeus Cultur-Monts e Rurarq.

No entanto, a chave para traduzir o impacto de gerações sucessivas de agricultores assenta num conceito muito específico. Cruzando a documentação dos tombos do século XVII com a memória oral viva dos habitantes, Clara Lemos lê a região como um documento que foi sendo sucessivamente rasurado e reescrito.

Um espaço da rotina diária no lugar da Coutada DR

“Quando olhamos para uma paisagem, tento compreender como foi construída e transformada por uma comunidade ao longo dos séculos. O palimpsesto é este conceito arqueológico de camadas que se vão sobrepondo à medida que o tempo passa. No território do Extremo temos uma paisagem agrária inicial, os fortes militares da Guerra da Restauração e, com a pacificação, a construção de novos socalcos. A este conjunto de intervenções chamamos palimpsesto.”

Clara Lemos define o conceito arqueológico de palimpsesto aplicado à paisagem estudada

A Arqueologia no Planeamento do Futuro

A cerimónia oficial de entrega deste prestigiado galardão nacional, promovido pela Associação dos Arqueólogos Portugueses, decorre esta quinta-feira, 18 de junho, às 18h00, no Museu do Carmo, em Lisboa.

Apesar deste elevado reconhecimento académico no campo histórico e patrimonial, a imersão nos métodos da arqueologia revelou-se um trunfo indispensável para a sua função principal. A investigadora assume que esta nova lente de observação mudou o seu dia a dia profissional, provando que o cruzamento de saberes ajuda a conceber cidades e vilas mais sustentáveis.

A forma como as duas disciplinas se complementam no exercício da arquitetura

Para a galardoada, “a forma como o arquiteto ou como o planeador olha o território é completamente diferente do arqueólogo”. Contudo, Clara Lemos sublinha que “essas visões não se opõem, pelo contrário, até se complementam”. É precisamente essa riqueza e “esta multidisciplinaridade que é interessante” e que a autora faz questão de passar para o seu dia a dia profissional. Uma nova lente de observação que, como a própria garante, a “ajuda a compreender melhor o território” que, através da sua formação base, procura potenciar de forma sustentável.


Sobre a Investigadora

Natural de Barcelos e com formação base em Arquitetura, Clara Lemos ingressou no mestrado em Arqueologia da Universidade do Minho movida por um fascínio de infância pela história e pelas origens da paisagem. Atualmente, exerce funções como arquiteta no Município de Barcelos.

A sua tese “Arqueologia agrária no extremo (Arcos de Valdevez): materialidade e documentação (séculos XVII a XIX)” contou com a orientação atenta de Rebeca Blanco-Rotea e Francisco Azevedo Mendes. Ao materializar um hobby numa ferramenta técnica de excelência, a investigadora é a prova viva de que a ciência produz melhores resultados quando impulsionada por dedicação pessoal.

A entrevista de Clara Lemos ao UMinho I&D está disponível na íntegra em podcast.

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Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

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Carolina Damas
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