Bombeiros Voluntários de Braga querem contar 150 anos de história em livro

Livro comemorativo, falta de voluntários e financiamento marcam desafios dos bombeiros de Braga. Os temas estiveram em destaque no programa Campus Verbal, esta semana com o presidente da Associação Humanitária, António Ferreira.

A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Braga quer assinalar os seus 150 anos de história, em 2027, com o lançamento de um livro comemorativo que reúna e preserve a memória da instituição.

O projeto, considerado um dos grandes desafios da atual direção, pretende colmatar lacunas históricas, sobretudo no que diz respeito ao primeiro século de existência, ainda pouco documentado. Para isso, a associação está a trabalhar em conjunto com especialistas da área da História da Universidade do Minho, numa investigação que passa por arquivos locais, jornais e outras fontes.

Na noite desta terça-feira, em entrevista ao programa Campus Verbal, da RUM, o presidente António Ferreira sublinhou que esta obra deverá ser “um contributo para a história” e uma forma de homenagear as várias gerações que serviram a corporação ao longo de mais de um século.

A par desta iniciativa, o dirigente deixa vários apelos, tanto à sociedade civil como aos decisores políticos, alertando para os desafios que se colocam ao futuro das associações humanitárias de bombeiros voluntários em Portugal.

Entre as principais preocupações está a sustentabilidade do modelo, fortemente dependente do voluntariado e de financiamento considerado insuficiente. Apesar de garantir que a corporação de Braga apresenta atualmente uma situação financeira equilibrada, António Ferreira lembra que os custos operacionais são elevados e permanentes, com destaque para equipamentos, viaturas e formação.

“Apoiar os bombeiros é um investimento”

No plano financeiro, António Ferreira detalha que o apoio do Estado ronda os 12 mil euros mensais, valor que considera insuficiente face às necessidades da corporação. Já o Município de Braga passou a atribuir um subsídio anual de 70 mil euros — um aumento significativo face ao passado, quando esse apoio era inexistente. Ainda assim, a associação enfrenta encargos mensais superiores a 100 mil euros, num orçamento anual de cerca de 1,3ME. A situação é agravada pelos atrasos nos pagamentos de entidades públicas, nomeadamente do INEM, que podem chegar a vários meses, obrigando a uma gestão rigorosa para garantir o funcionamento contínuo dos serviços.

O financiamento estatal e municipal, bem como as quotas dos sócios, ficam aquém das necessidades, sendo grande parte da receita assegurada pelos serviços prestados, nomeadamente no transporte de doentes e na emergência pré-hospitalar.

Presidente dos bombeiros de Braga alerta para riscos no futuro das associações

Ainda assim, o presidente aponta um problema estrutural mais profundo: as condições dos bombeiros profissionais integrados nas associações. Salários baixos, ausência de carreira definida e falta de apoios sociais têm levado muitos a abandonar o setor, procurando melhores oportunidades noutras entidades.

“As associações vão perdendo os seus melhores bombeiros”, alerta, defendendo a necessidade urgente de medidas concretas por parte do Governo. Nesse sentido, António Ferreira reconhece sinais de abertura por parte da tutela, que tem promovido contactos com o setor, mas sublinha que continuam a faltar resultados práticos.

Aos responsáveis políticos, pede soluções que garantam dignidade e estabilidade a quem exerce estas funções. À população, deixa um apelo direto: maior proximidade e apoio às corporações.

“Ser sócio dos bombeiros não é uma esmola, é um investimento”, afirma, reforçando a importância de um envolvimento contínuo da comunidade, e não apenas em momentos de emergência.

Menos voluntários e mais exigência: o desafio de ser bombeiro hoje

No plano operacional, a associação prepara também uma nova recruta, com cerca de 15 elementos, num processo exigente que se prolonga por cerca de um ano. Segundo António Ferreira, nem todos os candidatos chegam ao fim, dada a exigência física, técnica e de compromisso que a função implica.

O perfil dos novos voluntários tem vindo a mudar. Embora ainda exista interesse por parte dos jovens, a adesão é menor do que há uma ou duas décadas. Muitos aproximam-se motivados pelo simbolismo da função, mas acabam por desistir perante as exigências. Ainda assim, Braga mantém alguma capacidade de atração, beneficiando de uma população jovem e cada vez mais diversa, com a presença de candidatos de várias nacionalidades.

A direção está agora a apostar também na formação desde cedo, com a criação de programas para crianças e jovens, procurando garantir a renovação futura da corporação.

Num ano marcado pelas comemorações dos 150 anos, a associação pretende, assim, não só celebrar o passado, mas também lançar um olhar crítico sobre o presente e preparar o futuro de uma instituição essencial à comunidade.

Preocupação com a sucessão. António Ferreira deixa apelo à comunidade

António Ferreira manifesta também preocupação com o futuro da liderança da instituição, sublinhando a dificuldade em encontrar quem assegure a continuidade do trabalho desenvolvido. Aos microfones da RUM fez questão de deixar um apelo direto à comunidade:

“Dentro dos 3.500 sócios que nós temos, que haja gente que se aproxime mais da associação e que até conviva mais connosco e que possa, de certo modo, ir aprendendo aquilo que é necessário para podermos ter uma associação tranquila e calma.” O dirigente admite que a renovação geracional é essencial e reconhece que “ninguém é eterno nos cargos”, reforçando a necessidade de surgir “sangue novo” que dê continuidade ao projeto.

Recorde-se que António Ferreira não pretendia recandidatar-se no ato eleitoral do ano passado mas acabou por fazê-lo depois de um forte apelo dos próprios bombeiros e outros dirigentes. Apesar da recandidatura e da ligação diária à associação humanitária, o dirigente reconhece que é tempo de descansar e deixar que lhe sucedam no cargo no próximo ato eleitoral, dentro de dois anos.

A entrevista completa já pode ser escutada em podcast

Partilhe esta notícia
Elsa Moura
Elsa Moura

Diretora de Informação

Deixa-nos uma mensagem

Deixa-nos uma mensagem
Prova que és humano e escreve RUM no campo acima para enviar.
Negócios à lupa
NO AR Negócios à lupa A seguir: Elisabete Apresentação às 12:00
00:00 / 00:00
aaum aaumtv