Arqueogenética. Como o estudo do ADN antigo na UMinho pode reescrever a História

E se a verdadeira história da humanidade não estivesse nos manuais escolares, mas sim escondida nas nossas próprias células? O investigador Pedro Soares, do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Universidade do Minho, ajuda-nos a descodificar o passado através da arqueogenética, provando que os mapas migratórios dos nossos antepassados são muito mais complexos e surpreendentes do que julgávamos.
Longe vão os tempos em que a reconstituição do nosso passado evolutivo dependia em exclusivo de achados arqueológicos clássicos. Hoje, as grandes respostas sobre as nossas origens encontram-se também no laboratório. Ao analisar o ADN extraído de fósseis humanos com centenas ou milhares de anos, a arqueogenética permite aos cientistas olhar para o verdadeiro espelho retrovisor da história da espécie humana.
Este ramo científico cruza a genética das populações modernas com o genoma antigo, oferecendo uma visão sem filtros sobre de onde viemos, como nos fomos misturando ao longo dos milénios e de que forma diferentes povos moldaram a herança genética que carregamos atualmente.
Viagem ao passado através das nossas células

O estudo do ADN humano tem assumido um papel de destaque na reescrita dos percursos da humanidade. O recurso à arqueogenética permite analisar a genética humana, quer através do estudo do DNA das populações modernas atuais, quer pela análise de DNA antigo obtido a partir de fósseis de pessoas que viveram há centenas ou milhares de anos. O objetivo principal é utilizar a evolução humana para clarificar questões centrais sobre as migrações globais.
“A arqueogenética é o uso da informação genética, da evolução humana, para tentar resolver questões relacionadas essencialmente com o movimento das populações humanas com as ancestralidades e de onde as diferentes populações vieram, de onde é que elas provêm.”
Quando a genética esbarra na religião
Por se basear em dados biológicos rigorosos e não enviesados, a arqueogenética acaba, inevitavelmente, por colidir com narrativas tradicionais. Pedro Soares relembra como os resultados que sugerem que as línguas indo-europeias (como o sânscrito) e determinadas populações chegaram à Índia há cerca de 5.000 anos vindas da Europa, acabaram por gerar resistência. Estes dados mexem com crenças locais, nomeadamente com os defensores da religião hindu, que advogam que a sua origem tem mais de 40.000 ou 50.000 anos.
“Obviamente vai tocar em crenças que uma pessoa nem sequer tem como objetivo tocar a nível genético. Podemos dizer que por vezes ofende às vezes as populações locais.”
O mosaico genético do “português médio”
Se olharmos para dentro de portas, Portugal revela-se um território extremamente rico do ponto de vista da ancestralidade. Embora seja difícil definir um português “típico”, é possível desenhar um perfil do português “médio” com base nas diferentes correntes migratórias. Este perfil integra uma herança dos primeiros migrantes a habitar a região e uma percentagem maioritária proveniente da chegada da agricultura e do Neolítico, há cerca de 7.000 anos. O investigador acrescenta que o nosso ADN conta ainda com um peso considerável da expansão de populações oriundas das estepes russas e ucranianas.
“Apresentamos também percentagens variáveis resultantes de migrações mais pontuais, como as relacionadas com o período da escravatura ou com os fluxos populacionais do Norte de África.”
Para o investigador do CBMA, o puzzle da evolução humana está longe de estar concluído e promete continuar a revelar surpresas. Ao contrário da ideia de que somos uma população estagnada, a introdução de novas genéticas ao longo dos milénios tem trazido vitalidade à nossa espécie. Sendo uma área de forte pendor multidisciplinar, a arqueogenética obriga a cruzar os dados do ADN com o trabalho de arqueólogos, linguistas, antropólogos e até climatologistas.
A entrevista de Pedro Soares ao UMinho I&D está disponível em podcast.
