Do espaço para os Cuidados Intensivos: como a Medicina Espacial inova a saúde na Terra

O investigador e médico Gonçalo Torrinha explica como a medicina espacial e a microgravidade estão a revolucionar os cuidados intensivos no nosso planeta.
Gonçalo Torrinha em entrevista ao UMinho I&D:

O que acontece aos astronautas no Espaço tem um impacto direto e transformador nas macas dos nossos hospitais. Gonçalo Torrinha, médico interno de Medicina Intensiva no Hospital de Braga e investigador clínico do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Universidade do Minho, estuda a fisiologia espacial para resolver desafios clínicos diários. Numa entrevista ao programa UMinho I&D, o investigador desmistificou a ideia de que a exploração aeroespacial é um desperdício de recursos, revelando como o ambiente espacial funciona como um laboratório de excelência para a inovação médica e farmacológica.


A Necessidade Inata de Ultrapassar Fronteiras

Sempre que se discutem missões espaciais, surge o debate sobre os custos e riscos de colocar tripulações num ambiente inóspito em vez de utilizarmos tecnologia autónoma. O investigador com formação em Fisiologia Espacial Humana pela Agência Espacial Europeia reconhece esse dilema, admitindo que “era tudo mais fácil se só pudéssemos enviar robôs”, uma constatação que gera frequentes discussões com os seus colegas da área da engenharia. Contudo, Gonçalo Torrinha lembra que o motor do avanço científico é inseparável da emoção humana, justificando que “ninguém se entusiasma com o feito de um robô ou de uma sonda”. Na sua perspetiva, a nossa espécie é “um bocadinho egoísta” e o verdadeiro fascínio surge precisamente quando vemos “um de nós a fazer alguma coisa, com um de nós a ultrapassar a barreira”.

Gonçalo Torrinha reflete sobre o debate entre missões robóticas e tripuladas, destacando a necessidade inata de superação humana

A Microgravidade como o “Laboratório Perfeito”

Longe de ser apenas uma aventura para testar os nossos limites, a exploração aeroespacial traz dividendos de excelência para a medicina. O ambiente espacial proporciona condições laboratoriais ímpares, impossíveis de replicar na Terra. A ausência da força limitadora da gravidade permite, por exemplo, que a cristalização de proteínas ocorra de forma altamente estável, o que abre a porta à criação de novos fármacos com uma estrutura perfeita e com enorme potencial clínico.

O investigador destaca o nível de pureza inalcançável no fabrico de fármacos no Espaço, que compensa os altos custos do setor aeroespacial

“É fascinante conseguirmos retirar uma condição que para nós é tão inata e produzir algo com uma estrutura tão pura. Esse nível de pureza mitiga todos os gastos inerentes à montagem de uma fábrica em órbita, pois estamos a criar condições ótimas para que esses produtos tenham uma vantagem competitiva muito extensa face aos que conhecemos cá.”


O Paralelismo entre Astronautas e Doentes Críticos

O cruzamento de conhecimentos torna-se ainda mais evidente na prática clínica diária nos hospitais. Nos voos espaciais, um dos maiores inimigos da saúde é o desgaste estrutural causado pela ausência de gravidade e imobilidade. O médico internista constata que este “descondicionamento é uma realidade tanto em ambiente espacial como em ambiente de unidade de cuidados intensivos”, afetando igualmente doentes crónicos e idosos. Reduzindo a complexidade biológica ao princípio prático de que “o que não se usa perde-se”, o investigador considera curioso que esta acabe por ser “uma semelhança que um astronauta e um doente de cuidados intensivos acabam por ter”.

O especialista em Medicina Intensiva estabelece a ponte surpreendente entre a atrofia estrutural de um astronauta e a de um paciente hospitalar

Da Órbita para a Comunidade e o Grupo Space@UMinho

Perante esta interligação, a ciência desenvolvida para travar a degradação dos astronautas transforma-se numa valiosa linha orientadora para reabilitar os doentes críticos na nossa região. Para responder a estes desafios transversais de forma estruturada, a academia minhota continua a fortalecer as suas valências e a consolidar uma vasta rede multidisciplinar de colaboração, que deu origem ao grupo de trabalho Space@UMinho.

Juntando especialistas de várias áreas, da medicina e engenharia à física de partículas e ao direito, este ecossistema colaborativo garante que o conhecimento gerado ao tentar ultrapassar a nossa atmosfera tenha sempre como destino principal a melhoria da vida na Terra.

Para facilitar a aproximação da comunidade e divulgar futuras iniciativas desta rede, o grupo disponibilizou um formulário online. Os interessados em acompanhar as novidades, colaborar ou fazer parte desta comunidade aeroespacial podem inscrever-se através do link de divulgação.


Sobre o Investigador

Reprodução UMinho

O percurso de Gonçalo Torrinha é pautado pela curiosidade de aliar dois mundos aparentemente opostos. Atual docente assistente convidado na Escola de Medicina da UMinho, fundou a Associação Portuguesa de Jovens para a Medicina Aeronáutica e Espacial. Em 2022, viu o seu mérito reconhecido com uma bolsa internacional da Space Medicine Association. Apesar desta paixão pelo cosmos, confessa que o seu objetivo nunca foi seguir o estereótipo de “médico de astronautas”, mas sim aproveitar o conhecimento gerado nos ambientes extremos para inovar na resposta aos doentes em estado crítico na Terra.

A entrevista de Gonçalo Torrinha ao UMinho I&D está disponível na íntegra em podcast.

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Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

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