50 anos de Relações Internacionais. A “condição periférica” que levou a UMinho ao centro da diplomacia mundial

Há 50 anos, nascia na Universidade do Minho uma licenciatura pioneira que viria a agitar o panorama da diplomacia e do ensino superior em Portugal. Num país recém-saído de uma ditadura e marcado por uma cultura profundamente centralista, o curso de Relações Internacionais afirmou-se a partir de Braga, exportando talento para o centro de decisão do Estado e para organizações globais emblemáticas, desde as Nações Unidas à União Europeia.
Neste episódio do UMinho I&D, conversamos com Luís Lobo-Fernandes, professor catedrático aposentado, decano desta área em Portugal e um dos primeiros alunos do curso, que nos conduz pelos bastidores de cinco décadas de história.
A licenciatura em Relações Internacionais (inicialmente um bacharelato) arrancou no final de 1975, rompendo com o passado, por forte influência da visão precursora do então reitor Lúcio Craveiro da Silva.

Para o então estudante, que ingressou no curso após cumprir o serviço militar, a escolha gerou estranheza. “Muita gente na família interrogava-se: mas para que é que isso serve?”, recorda. A resposta chegaria de forma meteórica.
Da surpresa familiar ao Palácio de Belém
O curso exigia médias altíssimas a nível nacional e a ambição de se afirmar a partir do Minho marcou aquela geração. Na sequência da terceira edição dos célebres Colóquios de Relações Internacionais, em maio de 1982, recebeu um convite inesperado que o catapultou para o centro do poder do Estado.
Vencer o centralismo da capital não foi tarefa simples. “Nunca foi fácil, num país com a cultura política hiper-centralista, impor determinada formação a partir da periferia”, sublinha o professor. Contudo, defende que foi precisamente essa “condição periférica” que os obrigou “a ser mais dinâmicos, mais atentos e a atingir níveis de desempenho superiores”.

Nascidos em 1980, os Colóquios de Relações Internacionais afirmaram a UMinho como um polo central de debate geopolítico em Portugal
Um dos maiores exemplos desse dinamismo e recusa do isolamento nasceu logo em 1980, com a criação dos Colóquios de Relações Internacionais, uma iniciativa ininterrupta e pioneira no panorama académico português.
Assumindo um papel basilar nesta dinâmica, Luís Lobo-Fernandes recorda que o sucesso do curso se deveu, em grande medida, ao “pioneirismo” e a “muito atrevimento das sucessivas gerações de alunos”. Sem complexos face a Lisboa, os estudantes da academia minhota começaram a convidar as mais altas figuras do Estado para debater em Braga.
A terceira edição dos Colóquios, em maio de 1982, é o exemplo perfeito dessa ousadia. “O Presidente da República, Ramalho Eanes, veio abrir os colóquios. Eu propus a vinda dele, na altura as pessoas não acreditavam muito que seria possível, mas ele veio abrir os colóquios, com a primeira conferência a ser dada pelo professor José Medeiros Ferreira”, revela Luís Lobo-Fernandes. Foi precisamente no seguimento deste evento que o então reitor facilitou o contacto que resultou no convite vertiginoso para o jovem bracarense integrar a Assessoria das Relações Internacionais da Presidência da República, no Palácio de Belém.
Ao longo das décadas, o “atrevimento” minhoto continuou a dar frutos: personalidades como Jaime Gama (que foi a Braga de “mangas arregaçadas” quando o curso ainda era pouco conhecido), Mário Soares, Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa ou Adriano Moreira passaram pelos claustros da instituição. Como sublinha o investigador, estas iniciativas provaram que a UMinho tinha capacidade para superar a sua geografia, respondendo à “necessidade e o repto de nos impor de fora para dentro, da periferia para o centro, do poder político”.
A ligação aos EUA e a tese de José Ramos-Horta
A excelência alcançada em Braga traduziu-se na classificação sistemática de “Excelente” atribuída ao Centro de Investigação em Ciência Política. O próprio Luís Lobo-Fernandes somou um currículo internacional ímpar: doutorou-se em Cincinnati e foi bolseiro Fulbright nos Estados Unidos, onde permaneceu quase cinco anos.
Foi na sequência do trabalho desenvolvido nos EUA sobre a questão de Timor-Leste que o percurso do professor se cruzou com o do Nobel da Paz e atual Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta.
A tese acabaria por não ser concluída devido à eleição de Ramos-Horta para os destinos do país, mas a forte ligação do líder timorense à academia minhota manteve-se intacta, culminando na recente atribuição do Doutoramento Honoris Causa.

(Foto: Nuno Gonçalves / UMinho)
Uma Europa a tremer e a “sangria de talentos” em Portugal
A entrevista serviu também para olhar para o atual xadrez geopolítico, tema que deu mote aos 47.ºs Colóquios de Relações Internacionais. Titular de uma Cátedra Jean Monnet de Integração Política Europeia desde 2004, Lobo-Fernandes alerta que a Europa precisa investir na sua defesa.
Apesar das ameaças atuais, o catedrático faz questão de exaltar o valor ímpar e o feito histórico do projeto europeu.
Olhando para a realidade interna, o docente expressa preocupação com o fosso entre o litoral e o interior de Portugal. “O interior está desertificado, ando por aí e devo dizer que me dói o coração”, lamenta. A juntar a isto, o investigador aponta para a enorme “sangria de talentos” do país, lembrando que “nos últimos 13 anos nós exportámos cerca de 215 mil licenciados. Estes números são avassaladores”.
Quatro décadas depois de Carlos Albino, jornalista do Diário de Notícias, ter apelidado os colóquios da UMinho como a “gota de água no deserto da reflexão sobre a política externa em Portugal”, Luís Lobo-Fernandes despede-se com a certeza de que a missão continua a ser cumprida. “Este curso foi um mecanismo de respiração e de transpiração da Universidade do Minho para fora”. Após 50 anos, o curso que começou como um atrevimento de periferia é hoje um pilar da diplomacia portuguesa.
A entrevista completa de Luís Lobo-Fernandes ao UMinho I&D pode ser ouvida em podcast.
