Arqueogenética. Como o estudo do ADN antigo na UMinho pode reescrever a História

Pedro Soares, investigador da Universidade do Minho, explica como o estudo do genoma humano funciona como uma máquina do tempo para mapear as nossas origens. Uma jornada fascinante que mostra que somos um autêntico mosaico de ancestralidades e que as descobertas genéticas podem, muitas vezes, abalar crenças e dogmas milenares.
Pedro Soares sobre o lado multidisciplinar da arqueogenética:

E se a verdadeira história da humanidade não estivesse nos manuais escolares, mas sim escondida nas nossas próprias células? O investigador Pedro Soares, do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da Universidade do Minho, ajuda-nos a descodificar o passado através da arqueogenética, provando que os mapas migratórios dos nossos antepassados são muito mais complexos e surpreendentes do que julgávamos.

Longe vão os tempos em que a reconstituição do nosso passado evolutivo dependia em exclusivo de achados arqueológicos clássicos. Hoje, as grandes respostas sobre as nossas origens encontram-se também no laboratório. Ao analisar o ADN extraído de fósseis humanos com centenas ou milhares de anos, a arqueogenética permite aos cientistas olhar para o verdadeiro espelho retrovisor da história da espécie humana.

Este ramo científico cruza a genética das populações modernas com o genoma antigo, oferecendo uma visão sem filtros sobre de onde viemos, como nos fomos misturando ao longo dos milénios e de que forma diferentes povos moldaram a herança genética que carregamos atualmente.


Viagem ao passado através das nossas células

Amostra de ADN mitocondrial (Ilustração: SkieTheAce/Pixabay)

O estudo do ADN humano tem assumido um papel de destaque na reescrita dos percursos da humanidade. O recurso à arqueogenética permite analisar a genética humana, quer através do estudo do DNA das populações modernas atuais, quer pela análise de DNA antigo obtido a partir de fósseis de pessoas que viveram há centenas ou milhares de anos. O objetivo principal é utilizar a evolução humana para clarificar questões centrais sobre as migrações globais.

“A arqueogenética é o uso da informação genética, da evolução humana, para tentar resolver questões relacionadas essencialmente com o movimento das populações humanas com as ancestralidades e de onde as diferentes populações vieram, de onde é que elas provêm.”

Pedro Soares clarifica o conceito de arqueogenética e a forma como esta ciência rastreia as origens populacionais

Quando a genética esbarra na religião

Por se basear em dados biológicos rigorosos e não enviesados, a arqueogenética acaba, inevitavelmente, por colidir com narrativas tradicionais. Pedro Soares relembra como os resultados que sugerem que as línguas indo-europeias (como o sânscrito) e determinadas populações chegaram à Índia há cerca de 5.000 anos vindas da Europa, acabaram por gerar resistência. Estes dados mexem com crenças locais, nomeadamente com os defensores da religião hindu, que advogam que a sua origem tem mais de 40.000 ou 50.000 anos.

“Obviamente vai tocar em crenças que uma pessoa nem sequer tem como objetivo tocar a nível genético. Podemos dizer que por vezes ofende às vezes as populações locais.”

O especialista descreve as dificuldades de comunicação da ciência quando os mapas genéticos contradizem diretamente as crenças locais e religiosas de uma determinada região

O mosaico genético do “português médio”

Se olharmos para dentro de portas, Portugal revela-se um território extremamente rico do ponto de vista da ancestralidade. Embora seja difícil definir um português “típico”, é possível desenhar um perfil do português “médio” com base nas diferentes correntes migratórias. Este perfil integra uma herança dos primeiros migrantes a habitar a região e uma percentagem maioritária proveniente da chegada da agricultura e do Neolítico, há cerca de 7.000 anos. O investigador acrescenta que o nosso ADN conta ainda com um peso considerável da expansão de populações oriundas das estepes russas e ucranianas.

“Apresentamos também percentagens variáveis resultantes de migrações mais pontuais, como as relacionadas com o período da escravatura ou com os fluxos populacionais do Norte de África.”

Pedro Soares faz o raio-X da nossa ancestralidade, dissecando as diversas percentagens genéticas que compõem, hoje, o ADN do ‘português médio’

Para o investigador do CBMA, o puzzle da evolução humana está longe de estar concluído e promete continuar a revelar surpresas. Ao contrário da ideia de que somos uma população estagnada, a introdução de novas genéticas ao longo dos milénios tem trazido vitalidade à nossa espécie. Sendo uma área de forte pendor multidisciplinar, a arqueogenética obriga a cruzar os dados do ADN com o trabalho de arqueólogos, linguistas, antropólogos e até climatologistas.

A entrevista de Pedro Soares ao UMinho I&D está disponível em podcast.

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Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

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