Vaudeville Rendez-Vous. Entre a expansão a Viana do Castelo e o mistério do ‘Circo Escondido’

Por trás da programação que ocupa as ruas e praças do Minho, entre 15 e 18 de julho, existe uma complexa engenharia política, logística e artística que dita o desenho do Festival Vaudeville Rendez-Vous, que chega a uma nova cidade, depois de, em edições anteriores, já ter passado por Braga, Guimarães, Barcelos e Vila Nova de Famalicão.
Em entrevista ao programa Campus Verbal, da RUM, os diretores do Teatro da Didascália, Bruno Martins e Cláudia Berkeley, revelam os detalhes, as dores de crescimento e as motivações que levaram à maior mudança estrutural do evento este ano: a integração de Viana do Castelo e o projeto ‘Circo Escondido’.
A expansão não foi um ato casual, Bruno Martins explicou que, historicamente, “o festival acabou por estar muito colado àquilo que era um trabalho que se pretende, da antiga Associação Quadrilátero, de ser um evento que se desenvolvesse no âmbito desta associação”. Contudo, com a mudança para Pentágono, a inclusão de Viana “nasceu também da vontade do concelho querer estender a programação do festival à sua cidade”.
Para o responsável, este convite foi a oportunidade ideal para alargar a lógica de governação partilhada, num “processo de diálogo com uma rede intermunicipal”.
Com um orçamento que chega aos 330 mil euros, a atuação em cinco concelhos coloca também à prova a capacidade do festival de replicar o sucesso que já possui nas outras paragens. Cláudia Berkeley destacou que a resposta do público tem sido um pilar central na consolidação do roteiro, afirmando que o festival “já conta um público muito forte formado”.
No entanto, lembrou que o trabalho pedagógico do festival para lá destas praças ainda é longo, sublinhando que “ainda há muito trabalho a fazer para desmistificar o que é isto do circo contemporâneo”.
Segundo a diretora, existe uma visão redutora da disciplina artística, lamentando que esta arte seja vista como “sazonal”. Destacou ainda que “existem muitos artistas que criam precisamente para formatos convencionais, para teatros”.
O Quebra-Cabeças Logístico e a Relação com os Teatros
Apesar de o público comparecer em massa e de marcar presença constante, Bruno Martins fez questão de clarificar que o festival nunca teve problemas em atrair espetadores para as salas espetáculos e espaços convencionais, garantindo que “não foi um problema de público, que esteve bastante presente em todos os espetáculos”, exemplificando o espetáculo que o gnration acolheu em 2024que “não cabia mais uma pessoa”.
Neste ano, na 10ª edição, o festival ampliou a sua programação para primeira vez, decorrer em teatros e espaços convencionais, como a Casa das Artes de Famalicão, Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, gnration, em Braga, e o Theatro Gil Vicente, em Barcelos. Destes espaços, apenas a sala barcelense permanece no cartaz.

Bruno Martins revelou que as dificuldades em manter a programação nestes locais residem na articulação institucional a longo prazo. Detalhou que “ainda não foi possível convergir ideias, nem datas, nem disponibilidades dos teatros para poderem acolher este festival de forma concertada”.
Por essa razão, a exibição em salas cobertas acontecerá, por agora, de forma pontual e adaptada à realidade das agendas locais. Cláudia Berkeley confirmou que a organização mantém o desejo de ocupar os palcos convencionais. Apesar de não revelar o local, a responsável partilhou uma alteração de última hora para o espetáculo ‘Clamor’, que “também será, em princípio, dentro de portas”.
Circo Escondido desafia o público a surpreender-se
Uma das grandes apostas para a edição de 2026 foi desenhada para quebrar as barreiras de visibilidade enfrentadas pelas novas gerações. Cláudia Berkeley destacou que a iniciativa ‘Circo Escondido‘ nasceu de uma inquietação artística coletiva para garantir que os artistas emergentes “tenham espelho nas programações dos grandes festivais ou nos teatros”.
A organização realizou uma open call e selecionou cinco artistas que se vão apresentar em cada uma das cidades do Vaudeville Rendez-Vous. O formato desafia o espetador a confiar no festival de forma cega, convidando o público “a descobrir estes artistas”.
“O público sabe o horário e o dia da apresentação e apenas na hora do espetáculo é que vai saber qual é que é o artista que foi selecionado e qual é que é a obra que está aqui a ser apresentada”, revelou.

O Passaporte Não Importa: Apoio Sólido a Quem Cria “Cá Dentro”
Como é habitual, o cartaz conta com diversas companhias internacionais, que este ano surgem de Áustria, Brasil, Espanha e França. Cláudia Berkeley detalhou a busca por um equilíbrio nas escolhas artísticas, “entre a programação de artistas que estão sediados em Portugal e de artistas internacionais”. No caso do circo contemporâneo, a responsável assume que a paridade absoluta ainda não é uma realidade orgânica no país, motivado, na sua conceção por ser “uma forma de arte que agora sim se começa a sedimentar no território português”.
Apesar disso, garante que a organização do festival acompanha os artistas que estão a ser formados e realiza residências artísticas.
Neste processo de seleção, o passaporte dos criadores não é o fator decisivo para fechar o cartaz. Bruno Martins sublinhou que a direção artística foca a sua atenção na fixação do trabalho em solo nacional.
Para ilustrar esta visão e a projeção do mercado interno, o diretor recordou o percurso recente de um criador estrangeiro, que foi finalista do processo de seleção das circusnext, que decorreu recentemente na Croácia, “um artista que está sediado em Portugal, mas que é da Malásia”.
Internacionalização e o Jogo do “Circo Escondido”
O festival quer ser também uma alavanca de projeção além-fronteiras para os criadores que trabalham no Minho. Cláudia Berkeley destacou o acompanhamento e o desenho de pontes europeias. Mesmo quando os artistas não entram de imediato no alinhamento das apresentações, a equipa procura trabalhar os seus percursos, referindo que “muitas vezes, mesmo não sendo possível programar no imediato, buscam sempre dar um apoio aos artistas no sentido de impulsionar as suas carreiras internacionalmente”.
A responsável deu como exemplo o trabalho desenvolvido no ano anterior, recordando a parceria “muito forte” com a APCC (Associação de Profissionais de Circo da Catalunha), onde existiu um intercâmbio de artistas, e revelou que também é realizado em França e em outro projeto em Santander, também em Espanha.
“A ideia é que o Vaudeville também seja uma abertura de portas destes artistas para o mundo”, concluiu.
A programação completa está no site oficial do Festival.
