UMinho no espaço. Estudantes desenvolvem o primeiro satélite português com componente biológica

A ciência feita na Universidade do Minho está prestes a ultrapassar a atmosfera terrestre. A Aurora Mission, um projeto totalmente desenvolvido por estudantes, prepara-se para lançar o primeiro satélite português com um payload biológico. Trata-se de um marco histórico: é o primeiro CubeSat 1U europeu a integrar biologia e o primeiro sistema espacial à escala global capaz de induzir e controlar remotamente estados de hibernação celular.
A iniciativa não nasceu de um plano estratégico formal, mas sim de uma inquietação entre dois estudantes, um de Medicina e outro de Engenharia Aeroespacial, sobre a exclusividade do conhecimento biológico no espaço. Hoje, o projeto que começou com Pedro Ferreira Borges e Guilherme Santos é uma realidade validada pela Agência Espacial Portuguesa.
“Estando na Universidade do Minho e não estando no coração do nosso país, muitas das vezes é um bocadinho difícil arranjarmos apoios para os nossos próprios sonhos. No entanto, é através desta vontade teimosa e da conversa que nós temos com pessoas que são igualmente teimosas que um convence o outro que aquilo é possível.”
Pedro Ferreira Borges
Um laboratório num cubo de 10 centímetros
O objeto central da missão é um CubeSat 1U, um satélite discreto de apenas 10x10x10 centímetros. No entanto, o que transporta no seu interior é revolucionário. Em vez de utilizar apenas blindagens pesadas contra a radiação, a equipa optou por interagir com o ambiente espacial.
Através de engenharia genética, as leveduras Saccharomyces cerevisiae foram programadas para produzir melanina como resposta ao stress oxidativo provocado pela radiação. Desta forma, a biologia deixa de ser um passageiro passivo para se tornar um sensor inteligente e contínuo.
“É toda uma questão de miniaturizar aquilo que se tenta fazer na Terra ou aquilo que já foi feito em missões espaciais de grande calibre. Conseguimos colocar, de forma funcional, uma cultura biológica em canais de microfluídica, que são pequenos canais onde passa um líquido que faz os seres vivos microscópicos sobreviverem e que permite executar a experiência.”
Guilherme Santos
Hibernar para sobreviver
Um dos momentos mais críticos de qualquer missão é o lançamento, marcado por vibrações violentas e acelerações elevadas. Para proteger a vida nesta fase, a Aurora Mission utiliza o estado de esporo: uma fase natural onde o metabolismo das células abranda quase até parar.
Apenas quando o satélite atinge uma órbita estável é que o sistema liberta nutrientes e estabiliza a temperatura, permitindo que a experiência comece num ambiente controlado. Este método permite contornar a hostilidade do lançamento e focar a investigação no ambiente de microgravidade.
“O nosso objetivo de investigação pode ficar cumprido no fim desta missão, mas o objetivo de ter uma ideia e levá-la mais longe do que pessoas poderiam acreditar que ela poderia chegar nunca morre. Deixamos esse mesmo legado de que, com muita dedicação e quando se acredita, é possível.”
Pedro Ferreira Borges e Guilherme Santos
O que começou com dois estudantes é hoje uma equipa de mais de 60 pessoas, de mais de 15 cursos diferentes, organizada em 11 departamentos técnicos. Operando com metodologias de agências como a NASA ou a ESA, os alunos que é possível desenvolver tecnologia de ponta recorrendo ao método e à insistência.
O projeto conta com o suporte técnico de entidades como a DoneLab, Fibrenamics, CADFlow e EDMTech.
A conclusão da primeira fase da missão está prevista para o final de 2026 ou início de 2027.
A entrevista dos fundadores da Aurora Mission ao UMinho I&D está disponível em podcast.
