Reborn: O betão “renascido” da UMinho que usa resíduos para aquecer e arrefecer casas

A investigadora Sandra Cunha coordena um projeto inovador que utiliza ceras parafínicas da indústria de fundição para criar materiais de construção capazes de regular a temperatura interior dos edifícios sem consumo elétrico, combatendo a pobreza energética.

Cerca de 50 milhões de famílias na União Europeia sofrem de pobreza energética, um problema de saúde pública que afeta particularmente as populações mais vulneráveis. No Centro de Território, Ambiente e Construção (CTAC) da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, o projeto Reborn surge como uma resposta sustentável e de baixo custo para este desafio, focando-se no desenvolvimento de um betão inteligente e “renascido”.

A base da inovação reside nos Materiais de Mudança de Fase (PCM, na sigla inglesa). Estes materiais têm a capacidade de sentir as variações térmicas do meio ambiente, armazenando energia solar e libertando-a quando a temperatura desce.

Sandra Cunha explica o funcionamento dos materiais de mudança de fase com base na energia solar.

O SEGREDO” DOS MATERIAIS DE MUDANÇA DE FASE

Para contornar a barreira económica que impede a adoção destas tecnologias na construção civil, o projeto Reborn utiliza resíduos industriais, especificamente uma cera parafínica proveniente da indústria de fundição que, até agora, não tinha valor de mercado e acabava em aterros, tal como explica a investigadora:

“São matérias renascidas porque estamos a utilizar um resíduo, uma cera parafínica proveniente da indústria de fundição, que até este momento não tem outra aplicação. Nós conseguimos ver o potencial da sua utilização como materiais de mudança de fase e estamos a utilizar resíduos industriais que não têm valor no mercado e que vão, com certeza, ajudar imenso na regulação da temperatura nos edifícios.”

O conceito “REBORN”: O reaproveitamento de resíduos da indústria de fundição como materiais inteligentes.

PAREDES QUE FUNCIONAM COMO BATERIAS

Ao incorporar estes resíduos diretamente no betão, as paredes das habitações passam a funcionar como autênticas baterias térmicas. O sistema é totalmente passivo, utilizando apenas energia solar, uma fonte limpa e gratuita, eliminando a necessidade de sistemas de climatização auxiliares (como ar condicionado ou aquecedores) em muitos cenários.

O projeto destaca-se ainda pela técnica de incorporação direta, que Sandra Cunha descreve como uma solução “mais simples e económica”, permitindo uma redução significativa na pegada de carbono ao evitar o uso de matérias-primas naturais e ao valorizar subprodutos industriais.

As vertentes de poupança do projeto através de novos materiais e técnicas de incorporação.

SUSTENTABILIDADE E DESCARBONIZAÇÃO

A integração destes materiais no betão não beneficia apenas o utilizador final através do conforto térmico; contribui também para a redução da pegada de carbono da própria indústria da construção, ao substituir agregados naturais por materiais reciclados.

O impacto do projeto na descarbonização dos edifícios e na mitigação das alterações climáticas.

O Reborn é um projeto exploratório de 18 meses liderado pela Universidade do Minho, mas conta com uma rede de parceiros estratégicos: a Universidade de Salento (Itália), a fundição FERESPE e a W2V (gestão de resíduos). Atualmente a meio do seu percurso, o projeto encontra-se em processo de patente.

“A investigação é um bichinho que, depois de termos contacto, nos vai consumindo. É a busca pelo conhecimento para contribuir para o meio ambiente e reduzir os custos da construção.”

Sandra Cunha

SOBRE A INVESTIGADORA: Sandra Cunha é investigadora no CTAC e docente na Escola de Engenharia da UMinho. O seu percurso na área dos materiais de mudança de fase começou no doutoramento, sob a mentoria do professor Barroso Aguiar, pioneiro mundial nesta área. Atualmente, lidera diversas linhas de investigação focadas na economia circular e na descarbonização do setor da construção.

A entrevista de Sandra Cunha ao UMinho I&D está disponível em podcast.

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Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

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