Presidente da Cáritas de Braga avisa que o conceito de pobreza está a mudar

De famílias carenciadas que recorrem uma refeição quente ou a uma ajuda para pagar a renda de uma habitação, a cidadãos que vivem na rua por diferentes circunstâncias, as respostas sociais diárias de diferentes instituições contribuem para uma vida menos amarga de jovens e idosos em Braga.
A dimensão da cidade e a sua multiplicidade cultural não é apenas sinómino de cosmopolitismo. O aumento sucessivo nos preços da habituação continua a trazer desafios acrescidos, mesmo para quem trabalha, porque os salários não acompanham a inflação. São instituições de solidariedade como a Cáritas Arquidiocesana de Braga que fazem a diferença ao final do dia.
A ajuda concretiza-se com uma refeição quente mas noutras situações com comparticipação para o pagamento de rendas. Só nesta dimensão, no ano de 2025 a Cáritas de Braga canalizou mais de 38 mil euros para famílias que mesmo a trabalhar estão impossibilitadas, financeiramente, de cumprir com todas as suas obrigações.
A Cáritas de Braga é constituída por 39 profissionais, mas a dirigente sublinha a ideia de que além de colaboradores desempenham uma missão voluntária em permanência. Defensora da promoção da felicidade no local de trabalho, a presidente da Cáritas acrescenta que “além da vocação”, estes profissionais “têm um coração gigante”, caraterísticas determinantes para levar uma palavra de força a quem atravessa uma situação menos positiva. “Vocação, dedicação, entrega, compromisso. Há aqui uma série de fatores que não se conseguem quantificar, mas em termos de qualidade fazem toda a diferença nas pessoas que atendemos diariamente. Não há horários para a emergência social, porque a emergência social não escolhe hora, nem escolhe dia”, lembra.
“Tudo começa pela habitação, é um direito. Hoje há uma complexidade diferente na pobreza”
O conceito de pobreza está a mudar, constata a responsável da Cáritas de Braga nesta grande entrevista concedida à RUM. O conceito de pobre que pedia ajuda era diferente no passado. Hoje, o valor dos vencimentos e o custo de vida, sobretudo na área da habitação coloca cada vez mais famílias numa situação de emergência em que a ajuda social representa uma alternativa que evita a rua como lugar para viver.
“As pessoas não conseguem fazer aqui justiça ao custo de vida e tivemos um aumento exponencial no pagamento de rendas para que realmente as pessoas não percam a habitação. Em 2025, nesta situação em específico de apoio ao pagamento de rendas o investimento rondou os 38 mil euros”, especificou.
A vulnerabilidade é mais evidente quando se constata a realidade dos colchões partilhados. “É a única coisa que as pessoas podem pagar, é um colchão partilhado. E com isto levantam-se também outras questões e outras situações, mas efetivamente são realidades com as quais nos deparamos.”
Já a cantina social no ano de 2025 seviu mais de 29 mil refeições, “um número elevadíssimo” admite a presidente da Cáritas mencionando o aumento de 117 novos beneficiários, comparado com o ano anterior.

Muito recentemente, as tempestades que assolaram a zona centro do país colocaram à prova a capacidade e os conhecimentos dos profissionais da Cáritas, uma vez que contam com uma equipa com formação e pronta para agir em emergências e catástrofes.
“Nós desejamos que ela nunca vá ser requisitada, a verdade é essa, mas quando requisitada importa estarmos prontos para agir no terreno e para sermos a ajuda que as pessoas realmente necessitam”, acrescenta. A formação é organizada pela proteção civil, pelo município e é pensada em como agir no terreno em situações diferenciadas.
50 cidadãos estrangeiros conseguiram trabalho com a ajuda da Cáritas de Braga depois de chegarem a Portugal sem nada
A Cáritas de Braga regista um total de 50 integrações profissionais bem-sucedidas, num leque de 300 imigrantes de 25 nacionalidades que procuraram na instituição um abrigo depois de aterrarem em Portugal.
As redes de tráfego intensificaram-se e Braga é uma das cidades que tem acolhido cidadãos que gastaram as poucas poupanças num bilhete de avião, no aluguer de uma casa e com um trabalho prometido que afinal não existia.
A instituição, através do centro de acolhimento temporário, acompanha migrantes em situação vulnerável. Ana Santos explica que no meio das dificuldades há casos de sucesso, mas admite que algumas empresas continuam resistentes a contratar estas pessoas.

Cáritas de Braga precisa de 500 mil euros para centro de apoio a vítimas de violência doméstica
Falta meio milhão de euros à Cáritas Arquidiocesana de Braga para o novo centro de acolhimento de emergência para vítimas de violência doméstica. A obra já arrancou há mais de meio ano e terá que ficar concluída até agosto de 2026 uma vez que conta com apoios do Plano de Recuperação e Resiliência(PRR).
A casa atual já foi abrigo e segurança para 652 mulheres e 238 crianças.
Nas instalações provisórias a capacidade é de 25 pessoas, mas o novo equipamento, num edifício já existente, é um dos grandes desafios da atual direção liderada por Ana Santos. Aos microfones da RUM, a presidente da Cáritas explica que está prevista uma nova campanha de recolha de donativos em março, mas toda a ajuda de empresas e cidadãos a título individual é bem-vinda.
A casa de emergência de apoio a vítimas de violência doméstica representará um marco diferenciador da instituição.

A instituição está a preparar mais uma campanha de angariação de fundos que irá decorrer no início de março num hipermercado da cidade, mas os interessados em contribuir podem fazê-lo contactando a Cáritas Arquidiocesana de Braga ou procedendo a uma transferência bancária para a instituição.

Ana Santos nasceu em 1981, é licenciada em Educação pela Universidade do Minho, com uma especialização em Supervisão da Formação e Mediação Educacional. Tomou posse como presidente da Cáritas de Braga em agosto de 2025. Assume em simultâneo a direção da Escola Profissional Afonso Henriques, em Guimarães.
A entrevista completa ao Campus Verbal pode ser escutada em podcast
