Porque é que Portugal falha quando chove? Especialistas da UMinho apontam três erros capitais

As recentes tempestades expuseram fragilidades transversais no país. Da resistência das casas à gestão dos solos, passando pelas leis do urbanismo, três investigadores da Universidade do Minho, de Engenharia, Biologia e Geografia, explicam à RUM porque é que Portugal continua vulnerável.

As cheias e ventos fortes que assolaram o território nacional voltaram a colocar em causa a preparação do país. Para além da inevitabilidade climática, há falhas humanas na prevenção, na “cultura de risco” e no ordenamento.

A Universitária ouviu José Campos e Matos (EEUM), Cláudia Carvalho Santos (CBMA) e Hélder Silva Lopes (ICS) para desenhar o retrato do país pós-tempestade.


1. Engenharia: “Não basta ter paredes fortes”

Para José Campos e Matos, professor da Escola de Engenharia da UMinho e perito em gestão de risco, o país vive uma ilusão de segurança baseada na robustez das obras. O perito em gestão de risco alerta que o betão, por si só, não salva vidas se não houver uma mudança comportamental profunda na sociedade.

“O problema não reside apenas na construção, mas na falta de preparação das organizações e dos cidadãos. Mesmo nas sociedades tecnologicamente mais avançadas, continuamos a ter perdas humanas e materiais porque resistimos à adaptação. É urgente importar modelos de prevenção.”

A falha não está no betão, mas na falta de preparação

O regresso ao “walkie-talkie”

O “apagão” tecnológico registado durante as tempestades revelou a fragilidade das redes modernas. Para o docente, a solução para o isolamento não passa apenas por mais satélites, mas por redundância básica. José Campos e Matos dá o exemplo da Suécia e sugere o regresso a tecnologias analógicas.

“Se o atual sistema não funciona, temos de voltar aos termos antigos como os walkie-talkies e os rádios a pilhas. A Suécia entregou a todos os cidadãos um kit de situação de risco.”

O exemplo sueco: regresso aos “walkie-talkies” e kits de emergência

Betão vs. Rapidez

Comparando com os Estados Unidos, onde as casas pré-fabricadas são comuns, o engenheiro nota que a tradição portuguesa do betão oferece maior resistência ao vento. Porém, para o especialista, os outros países distinguem-se pela rapidez de resposta e reconstrução.

“O segredo de outros países não está na dureza das paredes, está na rapidez de resposta. Enquanto nós queremos uma casa para a vida toda, eles focam-se na capacidade de reconstruir em apenas uma semana.”

José Campos e Matos
Paredes fortes ou resposta rápida? O contraste com os EUA e o Japão

2. Ecologia: “Perdemos a capacidade de travar a água”

Enquanto a engenharia olha para as infraestruturas, a ecologia olha para o chão. Cláudia Carvalho Santos, investigadora do CBMA (Centro de Biologia Molecular e Ambiental), alerta que as cheias rápidas são o sintoma de um solo doente e despido.

A especialista explica que a perda de vegetação, muitas vezes devido aos incêndios, retira a “rugosidade” necessária à paisagem, fazendo com que a água ganhe velocidade em vez de ser absorvida.

Sem vegetação, as encostas transformam-se em pistas para a água

O rio reclama o seu espaço

A água corre demasiado depressa para os rios porque os solos perderam a sua proteção natural. Mas, para além da velocidade, há o problema do tempo. A investigadora sublinha que a ciência analisa ciclos de 100 anos que a memória humana ignora, levando as populações a ocupar zonas que parecem seguras hoje, mas que historicamente pertencem ao rio.

“Nós temos ocupado leitos de cheia com recorrência há 50 anos. Como é um ciclo longo, ninguém se vai lembrar que há 50 anos o rio já andou por ali.”

Cláudia Carvalho Santos

A memória humana é curta e esquece o que o rio reclama a cada 50 anos

Criar “esponjas” naturais

Para o futuro, a geógrafa propõe uma mudança de paradigma: em vez de apenas muros e barragens, precisamos de soluções baseadas na natureza. O objetivo é transformar a paisagem em “esponjas” que retenham o excesso de chuva.

“O que nós temos que fazer é desacelerar o ciclo hidrológico e colocar o território com nuances que possam absorver a água. Precisamos de criar ‘esponjas’, que são os solos saudáveis, capazes de reter o excesso antes que ele chegue às populações.”

Soluções da natureza: criar solos que funcionem como “esponjas”

3. Ordenamento: A lei da habitação em “contramão”

A fechar o triângulo da prevenção está o ordenamento do território. Hélder Silva Lopes, geógrafo e investigador do Lab2PT (Laboratório de Paisagens, Património e Território), é crítico em relação às recentes opções políticas que facilitam a construção.

“Respeitar a natureza no ordenamento do território é algo que não temos conseguido fazer, basta ver pela última mudança na lei que permite construir em áreas para as quais não têm essa finalidade à partida.”

Hélder Silva Lopes

A crítica à lei da habitação que permite construir onde não se deve

Uma década perdida?

O docente do Instituto de Ciências Sociais alerta que a urgência em construir casas está a atropelar a segurança e a ignorar a ciência. Hélder Silva Lopes teme que, se não houver uma mudança na aplicação técnica do conhecimento, os problemas persistam.

“O conhecimento científico tem evoluído muito, mas a concretização técnica continua a ter lacunas. Isso faz-me crer que, se nada mudar, daqui a 10 anos continuaremos a ter exatamente os mesmos problemas que temos hoje.”

O aviso do geógrafo: “Daqui a 10 anos teremos os mesmos problemas”

Sem segurança não há turismo

O desordenamento não afeta apenas quem mora, mas também a economia. Enquanto especialista em Turismo, o investigador avisa que é impossível “vender” o interior como um destino atrativo (trilhos, passadiços, hotéis rurais) se os visitantes não se sentirem seguros.

“Para se vender um destino, ele precisa de estar efetivamente em condições. Se não temos uma resposta efetiva, torna-se impraticável o desenvolvimento da atividade turística nesses locais.”

Turismo em risco: sem segurança, não se vende o interior

Entre a engenharia, a biologia e a geografia, o diagnóstico dos três especialistas da UMinho é unânime: Portugal precisa de deixar de confiar apenas na sorte ou no betão. Enquanto a “cultura de risco” não sair do papel e entrar tanto nas leis como na mentalidade dos cidadãos, as tempestades continuarão a cobrar uma fatura demasiado alta – seja em casas inundadas, seja em destinos turísticos que deixam de o ser.

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Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

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Carolina Damas
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