“O cérebro é um músculo que atrofia se não for estimulado”. O alerta de Dalila Durães sobre o uso da IA
Ariana Azevedo / RUM
Dalila Durães, investigadora da UMinho e vice-presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial, defende uma visão humanista da tecnologia, alerta para os perigos da clonagem de voz sem transparência e sublinha a importância de manter o pensamento crítico para evitar que o cérebro "atrofie" perante a facilidade das ferramentas digitais.
À margem da celebração do Dia Mundial da Rádio, a UNESCO escolheu como tema central “Rádio e Inteligência Artificial”. Para falar sobre uma tecnologia que se vai atualizado a toda a hora e momento, o UMinho I&D foi ao encontro de Dalila Durães, investigadora da Universidade do Minho e vice-presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial (APPIA).
Uma tecnologia ao serviço da pessoa
A docente do Departamento de Informática da Escola de Engenharia explica que a Inteligência Artificial (IA) é hoje uma presença constante e inevitável no quotidiano, desde as plataformas de streaming até aos eletrodomésticos. No entanto, sublinha que a investigação feita na academia deve ter sempre um propósito humanista.
“Ela [a IA] está em todo o lado. Desde o uso do Spotify, das escolhas de música, de sugestões que são dadas nas várias plataformas que existem… A visão humanista do grupo onde estou inserida [grupo de IA da UMinho] é: a Inteligência Artificial ao serviço da pessoa, para melhorar a atividade pessoal, e profissional, de forma a facilitar a vida em sociedade.”
O perigo das “bolhas de opinião”
Apesar das vantagens na curadoria de conteúdos, a personalização excessiva traz riscos sérios. Durante a entrevista, a investigadora do centro ALGORITMI alertou para o fenómeno das “bolhas”, onde os algoritmos, desenhados para captar a atenção através da emoção, acabam por isolar o ouvinte ou utilizador numa realidade limitada.
“A bolha da opinião é um dos problemas da inteligência artificial, porque ele tenta personalizar tanto ao ouvinte que depois perdemos a noção do que existe fora dessa bolha. O que normalmente fazem muitas empresas é tentar prender o cliente e, para prender o cliente, convém gerar emoção. Há um conjunto enorme de estratégias que os algoritmos fazem para prender o ouvinte o mais tempo possível ligado àquele programa.”
Transparência na era das vozes sintéticas
Outro ponto crítico abordado foi a clonagem de voz e o surgimento de influenciadores e locutores 100% virtuais. Para Dalila Durães, a tecnologia não deve ser travada, mas sim regulada pela transparência: o público tem o direito absoluto de saber se está a ouvir um humano ou uma máquina.
“Eu acho que faz sentido o público saber. A informação é dada ao espectador e depois ele pode gostar, pode continuar a assistir, mas tem a noção perfeita de que quem está à frente não é alguém real.”
O desafio do pensamento crítico no ensino
Alargando o debate à educação, a vice-presidente da APPIA mostrou-se preocupada com a forma como as novas gerações utilizam ferramentas como o ChatGPT. O risco, defende, é que a facilidade de obtenção de respostas leve a uma “preguiça” intelectual.
“O cérebro é um músculo que atrofia se não for estimulado. E esse é um dos grandes perigos. É muitas vezes os alunos usarem a plataforma e deixarem de pensar por eles. É importante eles usarem a ferramenta, mas depois terem o pensamento crítico e tentar construir algo que não exista.”
Sobre a investigadora
Dalila Durães é professora no Departamento de Informática da Escola de Engenharia da Universidade do Minho. Investigadora integrada do Centro ALGORITMI e do Laboratório Associado de Sistemas Inteligentes (LASI), exerce atualmente o cargo de vice-presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial (APPIA).
Com um percurso marcado pela promoção da ética na tecnologia e pelo incentivo à presença feminina nas áreas de engenharia, a sua investigação centra-se no desenvolvimento de sistemas de Inteligência Artificial aplicados à Educação, Saúde e Cidades Inteligentes (Smart Cities), defendendo sempre uma abordagem humanista onde a tecnologia serve para potenciar as capacidades humanas. É também membro da IEEE Computational Intelligence Society.