Manuel Caldeira Cabral e a UMinhoExec. “Esta ligação às empresas é a chave da mudança”

O ex-ministro da Economia, ligado à academia minhota desde 2004, foi o escolhido para liderar a nova fase da UMinhoExec. Em entrevista ao UMinho I&D, Manuel Caldeira Cabral explica como a escola quer deixar de ser apenas um espaço de ensino para passar a transformar ativamente o tecido empresarial, cruzando a gestão com a revolução da Inteligência Artificial.
Manuel Caldeira Cabral explica como a sua experiência governativa e de contacto direto com o tecido empresarial será a base da sua nova missão na UMinhoExec:

A Escola de Formação de Executivos da Universidade do Minho, a UMinhoExec, prepara-se para uma fase de grande dinamismo. Sob a liderança de Manuel Caldeira Cabral, a escola pretende revolucionar a ligação entre o conhecimento científico e o tecido empresarial. O objetivo central passa por transformar os modelos de negócio através de uma formação em estreita parceria com o mercado e da aplicação prática da Inteligência Artificial. O novo diretor assume esta etapa como um regresso às origens, alertando que o ensino de gestão exige hoje “lidar com as empresas por dentro”, garantindo respostas rápidas aos desafios de produtividade e à escassez de talento.

O docente da Escola de Economia, Gestão e Ciência Política (EEG) regressa, assim, à universidade, tirando partido da bagagem que acumulou no exterior. A sua passagem pelo XXI Governo enquanto ministro da Economia permitiu-lhe lidar de perto “com empresas, com problemas empresariais”, uma experiência de terreno que será agora a base da sua missão na UMinhoExec.


O cruzamento de saberes no coração da cidade

Edifício do Castelo, onde ficará instalada a UMinhoExec DR

A futura instalação da UMinhoExec no histórico edifício do Castelo, no centro de Braga, um investimento de 9 milhões de euros, materializa a ambição deste ciclo. Contudo, o responsável avisa que o polo de vanguarda é apenas “a parte que se vê”. O verdadeiro pilar estratégico para os próximos anos é a reconfiguração orgânica dos planos de estudo. Em vez do modelo tradicional em que a universidade apenas transmite conhecimento, a escola quer cruzar saberes. O objetivo é que quadros de empresas mais avançadas em determinados setores possam também atuar como formadores, gerando um ecossistema de partilha mútua de know-how com os restantes parceiros regionais.

A visão de Manuel Caldeira Cabral para o futuro da formação executiva assenta na integração do tecido empresarial enquanto parceiro ativo e cocriador do conhecimento.

“Eu penso que esta ligação às empresas é a chave da mudança. (…) E o que nós queremos fazer é uma formação para as empresas, mas também com as empresas. Este aprender uns com os outros é o que faz um ecossistema rico.”


A Revolução da Inteligência Artificial nos Modelos de Negócio

No panorama atual da formação de executivos, a tecnologia e a gestão fundiram-se. Manuel Caldeira Cabral sublinha que a tecnologia já não é um mero suporte. Serve antes como motor de grandes mudanças organizacionais. A adoção crescente da Inteligência Artificial (IA) não deve servir apenas para tornar os processos rotineiros ligeiramente mais céleres, mas sim para alterar de forma profunda os modelos de negócio e a própria logística empresarial.

“Se metermos muita tecnologia para fazermos o mesmo, mas um bocadinho melhor, estamos a falhar grande parte do que pode ser a revolução da inteligência artificial.

A verdadeira disrupção tecnológica exige uma reestruturação profunda da relação com a produção e os clientes

Apesar da automação, o fator humano continua a ser o grande diferencial. O antigo governante defende que a capacidade de liderança e o pensamento crítico serão cruciais para que os líderes consigam analisar a informação processada pela IA e direcioná-la para as melhores vias de ação dentro da empresa.


O Cluster Único do Minho e o Desafio do Talento

Olhando para a realidade local, a região do Minho é apontada como um caso de resiliência e inovação com um perfil único em Portugal e muito raro na Europa, por cruzar polos de software inovadores com uma indústria transformadora de forte tradição. As exportações nacionais sofisticaram-se nos últimos dez anos (ultrapassando-se a marca histórica de exportar mais software do que calçado) e o distrito beneficiou de parcerias vitais entre a universidade e o mercado de trabalho, com exemplos claros de transferência tecnológica na região, como é o caso da Bosch.

O professor universitário elogia a ligação estrutural e próxima no Minho entre inovação tecnológica e as empresas de base industrial

“A indústria continua cá, adaptou-se muito, mudou muito. A boa e a má notícia é que vai ter que continuar a mudar muito mais. Mas está cá. E essa ligação é muito interessante e é única na Europa.”

Para garantir que este ritmo não abranda, a atração e retenção de talento figura no topo das prioridades. Partindo da premissa do salário emocional, Manuel Caldeira Cabral vai mais longe e defende que as empresas precisam, acima de tudo, de “uma liderança que faça com que as pessoas sintam que a empresa é sua”, de modo a que as equipas consigam “vestir a camisola”. Paralelamente, o atual presidente do Conselho Estratégico da Startup Portugal salienta que o país tem de olhar para a imigração de forma “estratégica”. “A imigração não é boa nem é má, é necessária”, avisa o professor, lembrando que desafios estruturais de longa data, como a habitação, não se resolvem “sem que uma das componentes seja a imigração.”

EEG

Um Futuro Transformador

Para os próximos anos, o plano da UMinhoExec quebra a barreira entre a teoria e a prática. Os novos ciclos formativos trarão especialistas de ciências sociais e de tecnologia para as aulas de gestão. O objetivo fulcral é que os estudantes e quadros superiores saiam destes cursos com projetos de aplicação concreta já desenhados para as suas organizações.

“Eu não quero que a UMinhoExec se limite a ensinar coisas, se limite a fazer esta aproximação entre empresas e a universidade. Eu quero que seja transformadora. É aí que vou medir o impacto e ver se daqui a cinco ou 10 anos temos empresas que, pelo trabalho que se fez com elas, se transformaram e evoluíram de uma forma diferente e melhor. E para isso é preciso trabalhar muito em conjunto com as empresas no próprio desenho dos cursos.”

Manuel Caldeira Cabral traça a meta para a sua liderança: avaliar o sucesso da escola com base na evolução real e mensurável das empresas associadas no espaço de uma década

Apesar de toda a revolução tecnológica, o fator humano continua a ser a peça central da engrenagem corporativa. Recordando o seu início de carreira como jornalista no Diário Económico, Manuel Caldeira Cabral deixa um último aviso aos gestores: num mundo hiperconectado, saber comunicar é tão crítico como saber gerir. “É muito importante um líder empresarial saber comunicar os resultados da sua empresa, mas é igualmente importante saber comunicar entusiasmo aos seus colaboradores”, sublinha.

Para o novo diretor da UMinhoExec, as competências sociais (as chamadas soft skills) não perdem relevância com a digitalização. Pelo contrário, num cenário onde as redes sociais podem transformar rapidamente pequenos incidentes em “boatos absolutamente destrutivos”, a comunicação profissional torna-se ainda mais vital. Como o próprio remata, a consciencialização é clara: “com a capacidade que a tecnologia tem de ampliar erros ou de ampliar comunicação positiva, [a comunicação] fica ainda mais importante”.

A entrevista completa a Manuel Caldeira Cabral ao UMinho I&D pode ser ouvida em podcast.

Partilhe esta notícia
Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

Deixa-nos uma mensagem

Deixa-nos uma mensagem
Prova que és humano e escreve RUM no campo acima para enviar.
Cá Estamos
NO AR Cá Estamos A seguir: Praça do Município às 12:00
00:00 / 00:00
aaum aaumtv