(Inter)ditos debaixo dos lençóis: A desigualdade de género na intimidade heterossexual

A sexualidade heterossexual é frequentemente tratada como um território “monolítico” e pouco questionado pela Sociologia. No entanto, a investigação de Iolanda Fontaínhas, intitulada (Inter)ditos: as dinâmicas afetivas e sexuais do casal heterossexual, vem romper com esta invisibilidade. Através de entrevistas em profundidade com casais em relações estáveis, o estudo revela que os bastidores da intimidade ainda são regidos por guiões rígidos e por uma comunicação que, muitas vezes, serve para encobrir relações de poder desiguais.
O Jogo entre o que se Diz e o que se Cala
O ponto de partida da investigação foca-se na fronteira invisível entre o que é partilhado e o que é deliberadamente silenciado nas relações. Para a docente universitária, o silêncio é uma ferramenta de poder que reflete normas sociais assimiladas ao longo da vida, funcionando como um “interdito” que condiciona a vivência do prazer.
“Eu queria perceber, através das histórias [dos casais], aquilo que é dito e aquilo que é silenciado. E perceber que aquilo que muitas vezes não é dito, ou interdito na relação, é tão mais relevante, ou revelador, do que aquilo que é dito. Porque mostra que o que é silenciado o é por um conjunto de ideias que fomos assimilando sobre o que pode ou não ser dito sobre a sexualidade.”
“Este trabalho do amor cansa”
Um dos resultados mais expressivos da tese relaciona diretamente a satisfação sexual com a justiça na lida da casa. As tarefas domésticas e o apoio emocional são frequentemente vistos como extensões do afeto e não como trabalho real. No entanto, quando estas tarefas recaem desproporcionalmente sobre as mulheres, a exaustão física e mental anula o espaço para o desejo.
“Isto tem um peso brutal na nossa intimidade. Até porque este trabalho do amor cansa e acho que deve ser partilhado. A vida dos casais em que há um maior equilíbrio na partilha das tarefas domésticas é muito mais satisfatória.”
O “Imperativo do Orgasmo” e os Guiões Sexuais
A investigação descreve um roteiro sexual que pouco mudou nas últimas décadas: a atividade é centrada na penetração e termina, quase invariavelmente, quando o homem atinge o clímax. Este modelo, apelidado de “imperativo do orgasmo”, tende a invisibilizar as necessidades e o prazer da mulher.
“É o orgasmo masculino que tende a dar o sinalzinho de que a relação sexual acabou… Aquilo a que nós fomos ensinados é que uma relação sexual termina quando há o orgasmo masculino. A isto nós damos o nome do imperativo do orgasmo. Primeiro o imperativo do coito, que implica a penetração sempre, e depois o imperativo do orgasmo.”
Complacência e o “Dever Conjugal”
O conceito de complacência sexual surge na investigação para explicar por que razão muitas mulheres acedem à relação sexual sem vontade própria. Motivadas por uma pressão implícita ou pelo sentimento de manutenção da harmonia familiar, estas dinâmicas podem ser o ponto de partida para desequilíbrios mais graves.
“Eu não tenho vontade de ter relações sexuais, mas o meu parceiro pressiona-me a tê-las… ele ‘precisa’, senão vai procurar fora, então eu acabo por ceder. Mas cedo de uma forma que não é voluntária, eu sinto essa pressão. O sexo ainda surge como dever conjugal, então acabo por ter um comportamento mais complacente. Muitas vezes, esta situação pode ser a pontinha do icebergue para se instalarem dinâmicas de poder.”
Sinais de Alerta: A Violência Romantizada
A tese deixa ainda um alerta social sobre a forma como o sofrimento e o controlo são normalizados através do afeto. Iolanda Fontaínhas defende que a desconstrução dos mitos românticos, presentes desde a infância, é a base para a prevenção da violência.
“Em todos os contos e histórias infantis que nós ouvimos, alguém sofria muito por amor. Alguém até morria por amor. Mas não, o amor não mata. Pelo contrário. Esta romantização que se faz do ciúme e deste sofrimento… Temos que desconstruir esta ideia, porque a violência muitas das vezes não começa com um estalo, começa nestes pequenos sinais: no vasculhar os telemóveis, no exigir passwords, no não respeitar as vontades sexuais.”
Sobre a Investigadora
Iolanda Maciel Fontaínhas é doutorada em Sociologia pela Universidade do Minho. O seu trabalho foca-se nas questões da intimidade, família e sexualidade, procurando trazer para o debate público temas muitas vezes negligenciados pela academia.
A entrevista completa ao UMinho I&D pode ser ouvida em podcast.
