‘Ganbatte ne’: A lição japonesa do Prémio de Mérito Científico da UMinho

De aspirante a jogador de futebol nas Taipas a referência mundial na ciência: Miguel Oliveira recebeu o Prémio de Mérito Científico 2026 da UMinho. Numa conversa emotiva, o investigador revela como a perda da mãe moldou o seu percurso, explica o conceito japonês de 'Ganbatte ne' e desenha o futuro dos "investigadores híbridos".

Quem vê Miguel Oliveira no AvePark, a liderar projetos europeus de milhões de euros e com mais de 400 publicações científicas no currículo, dificilmente imagina que a sua primeira ambição passava pelos relvados de futebol e não pelas bancadas de laboratório.

Filho da terra – nasceu nas Caldas das Taipas, “paredes meias” com o instituto onde trabalha hoje em dia – o investigador cresceu num ambiente onde o desporto era rei. Influenciado pelo percurso familiar, nomeadamente pelo tio-avô que foi guarda-redes profissional do SC Braga e do FC Penafiel, o “bichinho” da bola esteve sempre presente na infância.

O sonho do futebol e a influência familiar

Aos 10 anos, a vida trocou-lhe as voltas e a tragédia bateu à porta. Miguel Oliveira perdeu a mãe, vítima de cancro. Foi esse momento de dor, vivido numa idade precoce, que o fez largar o sonho do desporto e abraçar uma missão maior. Não queria apenas tratar doentes: queria encontrar soluções que chegassem a todos.


“Prometi a mim mesmo, nos momentos mais difíceis, que ia tentar, não ajudar um paciente de cada vez, mas muitos ao mesmo tempo.”

– Miguel Oliveira
A promessa que mudou uma vida

A Escola Japonesa: Do lixo ao “Ganbatte ne”

O salto qualitativo na sua carreira deu-se a milhares de quilómetros do Minho. Durante o doutoramento, Miguel Oliveira viveu dois anos em Osaka, no Japão. Uma experiência que descreve como “única” e “futurista”, mas que começou com um choque cultural caricato: a primeira lição que recebeu não foi sobre biomateriais, mas sobre civismo.

Japão foi como “uma forma para ser e investigar”

“Quando cheguei ao Japão, fui ao edifício do município e entregaram-me um conjunto de sacos de lixo. A primeira coisa que me foi instruída foi como se fazia a separação do lixo. Isto, em 2005, para mim era algo impensável. A experiência cultural no Japão é única, é singular. É uma cultura milenar.”

Mais do que a gestão de resíduos, Miguel Oliveira absorveu uma mentalidade que acabou por moldar todo o seu caráter profissional. Para o investigador, o Japão foi uma escola de “ser e de investigar”.

Dessa temporada no Oriente, trouxe um lema que aplica diariamente na liderança da sua equipa no I3Bs: o Ganbatte ne. Mais do que uma expressão, é uma filosofia de trabalho que exige excelência e resiliência.

Ganbatte ne: dá o teu melhor

Inovação: Diagnóstico rápido e o “Investigador Híbrido”

AvePark (Foto: DR)

Hoje, a equipa de Miguel Oliveira está na linha da frente no combate ao cancro colorretal, um dos mais letais em Portugal. O grupo está a desenvolver um dispositivo de diagnóstico baseado em microfluídica, que promete revolucionar a deteção da doença pela sua acessibilidade.

O novo dispositivo que está a ser criado no AvePark

“É um dispositivo baseado em microfluídica para deteção do cancro colorretal em fases diferentes, estadios da doença. E o que o diferencia das técnicas atuais é que é de baixo custo e o tempo de análise é muito mais baixo: em menos de um dia conseguimos fazer.”

Mas para fazer ciência de ponta em 2026, o perfil do cientista mudou. Miguel Oliveira destaca a emergência do Investigador Híbrido, descrevendo estes novos profissionais como elementos multitasking e ‘multisaber’. Ao contrário do passado, já não se focam apenas numa especialidade estanque, mas operam “na interface dos diferentes saberes”, onde, segundo o próprio, “muita da investigação realmente pioneira emerge”.

A visão de Miguel Oliveira sobre o futuro da profissão científica

O “laboratório” de amor

Prestes a lançar uma start-up para levar estas tecnologias ao mercado e focado em reduzir a experimentação animal através de modelos in vitro, Miguel Oliveira não esquece o equilíbrio pessoal.

Quando despe a bata, o cientista regressa ao papel de pai atento. Preocupado com o impacto dos microplásticos na fertilidade humana e com os desafios da Inteligência Artificial, encontra o seu refúgio na cozinha, onde a precisão científica dá lugar ao afeto.

A cozinha como terapia

Sobre o investigador

Marcelo Hermsdorf / RUM

Joaquim Miguel Antunes Correia de Oliveira tem 48 anos e é natural de Caldas das Taipas, Guimarães.

É investigador principal com agregação e vice-presidente do I3Bs – Instituto de Biomateriais, Biodegradáveis e Biomiméticos da Universidade do Minho. É considerado um dos mais respeitados especialistas em biomateriais, engenharia de tecidos e nanomedicina, detém vasta publicação científica, patentes e distinções, como o Fellow of Biomaterials Science and Engineering (FBSE) atribuído pelo International College of Fellows of Biomaterials Science and Engineering, na Coreia do Sul, a propósito da Conferência Mundial de Biomateriais em 2023.

A entrevista completa de Miguel Oliveira ao UMinho I&D está disponível em podcast.

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Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

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Carolina Damas
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