Festivais Gil Vicente 2026 regressa renovado a Guimarães para discutir o peso da herança

Preparando aquilo que serão os moldes da edição do próximo ano, em 2026 os Festivais Gil Vicente apresentam-se no processo ativo de renovação. A essência, enquanto um espaço de criação diverso e aberto à experimentação, mantém-se, porém noutros aspetos as mudanças são óbvias, sobretudo num nível mais técnico.

Entre 4 e 13 de junho, Guimarães recebe mais uma edição dos ‘Festivais Gil Vicente’ (FGV) e abre as salas de espetáculo à produção teatral vimaranense, a novos formatos e espaços e aos jovens criadores. Sob a perspetiva da herança e o olhar de Bruno dos Reis, que se estreia na programação, o projeto apresenta uma dezena de peças que cruza temas como a juventude, o tempo, a sexualidade.

Preparando aquilo que serão os moldes da edição do próximo ano, em 2026 os Festivais Gil Vicente apresentam-se no processo ativo de renovação. A essência, enquanto um espaço de criação diverso e aberto à experimentação, mantém-se, porém noutros aspetos as mudanças são óbvias, sobretudo num nível mais técnico.

Dos espetáculos no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor (CCVF), aos jardins do Palácio, voltando à casa do Círculo Arte e Recriação (C.A.R) de Guimarães, que retoma a produção teatral e acolhe novamente um espetáculo; do início da tarde pela noite dentro, Bruno dos Reis admite querer perceber o que melhor deste modelo se adapta aos gostos do público.

Esta experimentação, apesar de “não ser nova”, admite, aplica-se igualmente à programação tendo em vista “uma nova tessitura criativa que existe em Guimarães”.

Bruno dos Reis explica novo modelo do Festivais Gil Vicente

De acordo com o programador, este é um trabalho que procurou pensar “qual é o imaginário destes jovens e que legado nós desejamos”. Mas contacta também com a ideia da herança, de passagem, literalmente deste legado que ainda tem a mão de Rui Torrinha, antigo programador dos Festivais, e do ponto de vista conceptual.

“Todos os espetáculos relacionam-se com a herança de uma forma um pouquinho diferente. Uns através da sua herança familiar, outros através da herança traumática, outros através da herança daquilo que é o repertório teatral.

Assim, nesta edição está de volta, ainda que de forma um “bocadinho expandida”, entre 28 de maio e 3 junho o projeto ‘Criações em Curso’ que dará espaço não só à apresentação de trabalhos finais dos alunos da Universidade do Minho, mas também acesso a ensaios abertos e a sessões de criação crítica “com criadores que vêm à cidade de propósito para esse momento”.

“Com tudo isto tentamos perceber que olhares jovens são estes que existem, que cirandam aqui pela cidade, que força é a sua e como é que nós os conseguimos integrar naquilo que é a nossa motivação primeira”.

Bruno dos Reis fala do propósito desta renovação

Aludindo a esta franja, e partindo até do ideário juvenil, os Festivais Gil Vicente arrancam na quinta-feira, dia 4 de junho, com a obra ‘Gatilho da Felicidade’, de Ana Borralho & João Galante, na Black Box do Centro Internacional das Artes José de Guimarães.

12 jovens vimaranenses revelam, durante um jogo de roleta russa, amores, inquietações, as suas famílias e projetos para o futuro naquilo que é um momento com duplo propósito: um jogo mortal em busca da felicidade.

No dia 5, o Pequeno Auditório do CCVF recebe a estreia absoluta de uma coprodução d’A Oficina. Marcada pela intimidade e pelo uso do dispositivo cinematográfico abraçado pelo teatro, Lúcia Pires interpreta ‘Álbum de Família’.

No dia seguinte, ‘Ivu’kar’ de João Grilo propõe uma abordagem sensível sobre a morte e o cuidado, enquanto ‘Só mais uma Gaivota’, da Formiga Atómica, revisita o universo de Tchékhov a partir de uma reflexão sobre o percurso artístico e o tempo. Ambos os espetáculos são acompanhados por intérpretes de Língua Gestual Portuguesa.

Na segunda semana, ‘AFRO SAL.OYÁ’, de Isabél Zuaa, volta ao CCVF para explorar o som enquanto elemento central de memória e identidade e ‘TOSHIIB4’, de Luísa Guerra, mergulha na relação entre sexualidade, tecnologia e construção do eu.

O último fim de semana concentra experiências imersivas e formatos híbridos, como ‘Espalhar Fel’, nova criação em formato audiowalk de Mickaël de Oliveira, nos Jardins do Palácio Vila Flor, seguido de ‘Tudo em Avignon e eu aqui’, criação que estreou Bruno dos Reis na direção artística do Teatro Oficina em dezembro último.

O encerramento acontece no mesmo dia, mais tarde, no Convívio Associação com ‘O Retiro dos Festivais’ liderado por Rafa Jacinto e Rui Araújo, reforçando a dimensão celebratória e enredada do evento.

Bruno dos Reis explica parte do programa e adaptação ao novo modelo

C.A.R de Guimarães acolhe espetáculo interativo

Depois de várias edições na antecâmara dos Festivais, o C.A.R de Guimarães volta a subir ao palco, literalmente. No dia 5, pelas 19h00, a sala Santos Simões daquele espaço cultural vimaranense recebe o TERB, a própria companhia de teatro, em parceria com a companhia N.A.V.I.O. para criar um laboratório de crise existencial, para questionar o valor que atribuímos à informação partindo do texto ‘No princípio era’ de David Calão.

Uma obra interativa, “como não podia deixar de ser”, e que busca inspiração naquilo que já é a rotina do espaço – o quiz que se realiza todas as últimas sextas-feiras do mês.

“É uma espécie de quiz que terá os seus meandros. É muito engraçado porque nós mensalmente temos um quiz que acontece aqui, nas últimas sextas-feiras de cada mês e, portanto, é uma correlação muito engraçada este espetáculo ser criado e ser executado aqui”, adianta Filipa Pereira, diretora do C.A.R e anfitriã da sessão de apresentação desta edição dos Festivais Gil Vicente.

Ainda que nunca tenha deixado de fazer parte da organização dos festivais, este espetáculo assinala o regresso da entidade fundadora da iniciativa à produção e ao roteiro dos espetáculos.

Filipa Pereira explica retorno do C.A.R e do TERB à produção do Festival

“Este ano surgiu esta hipótese de voltar a trazer um espetáculo aqui para casa e, quando isso surgiu, nós não dissemos que não, obviamente. É uma notícia que nós recebemos com muito agrado e queremos sempre trazer e incorporar a nossa equipa de teatro nos Festivais Gil Vicente. Podendo produzir um espetáculo, ainda melhor”.

Para Esser Jorge Silva, presidente do Conselho de Administração d’A Oficina, é a emoção da arte teatral, que também está presente na missão d’A Oficina, do Teatro Oficina, que devolve a consciência às pessoas que vivem “alienadas” da realidade presas na tecnologia. “Nós trabalhamos arte, trabalhamos cultura, e dentro das artes e cultura, nós trabalhamos emoções”, sublinhou.

Por sua vez, a vereadora da Cultura Isabel Ferreira, presente na sessão de apresentação, salientou a relevância da articulação com o Plano Nacional das Artes e o papel dos professores na promoção da presença da arte nas escolas, alinhando esta estratégia com as políticas culturais do município.

Programa paralelo inclui masterclass sobre escrita criativa

Paralelamente, destaca-se ainda a masterclass ‘Unreliable Narrator’, orientada por Luanda Casella, dirigida a estudantes e profissionais das áreas do teatro, jornalismo e literatura. Durante quatro dias, oito formandos são convidados a criar textos e a desenvolver a consciência crítica sobre como, historicamente, as narrativas moldam as perceções.

Foi ainda renovada, para mais uma edição dos Festivais, a rubrica ‘Hipertexto’ que coloca jovens criadores portugueses a escrever sobre as peças apresentadas para o meio digital.

Os bilhetes para assistir aos espetáculos estão disponíveis por valores entre os 3 e os 7,5 euros, podendo ser adquiridos online em oficina.bol.pt e presencialmente na bilheteira do CCVF e de outros equipamentos geridos pel’A Oficina e parceiros da BOL.

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José Silva Brás
José Silva Brás

Jornalista na RUM

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