“Fato à medida” com “chavões do Chat GPT”: Oposição critica nova orgânica, presidente rebate com “poupança”

A reunião do executivo municipal, agendada para esta quarta-feira, dia 18 de fevereiro, traz a debate dossiers estruturais para a gestão da cidade. Da ordem de trabalhos constam temas como a votação dos tarifários dos Transportes Urbanos de Braga (TUB) e da AGERE para 2026. No entanto, o debate político promete aquecer noutras frentes.
Questionados pela RUM sobre dois pontos específicos da agenda (a alteração da estrutura orgânica interna dos serviços municipais e a designação dos novos órgãos sociais da Associação de Festas de São João de Braga), os vereadores da oposição reagiram com dureza, acusando o edil, João Rodrigues, de governar com a tentação de um “poder quase absoluto”. O autarca reage às acusações com contas feitas e defesa de currículos: assegura uma redução da despesa na câmara e lembra que a presidente proposta para a organização das festas sanjoaninas trabalhou com as anteriores lideranças.
Reorganização dos Serviços: O ‘Chat GPT’ e a Contradição Eleitoral
Ricardo Silva, do movimento independente Amar e Servir Braga (ASB), é demolidor na desconstrução da proposta. Antes de entrar na análise do documento, o vereador aponta o que considera ser uma incoerência política. O independente recorda que João Rodrigues passou a campanha eleitoral a elogiar a sua própria capacidade de “despachar licenças” e a eficiência dos serviços, mas agora, ao propor esta revolução orgânica, parece admitir implicitamente que a máquina municipal afinal “não funciona”.
Para Ricardo Silva, esta proposta não passa de um “fato à medida” para acomodar nomes, redigida com uma linguagem que considera vazia e tecnológica apenas na aparência.

“O que nós percebemos é que é uma espécie de fato à medida para colocar, provavelmente, alguns nomes que já estão aí na calha para determinadas posições. Aquilo que ele [João Rodrigues] elencou no enunciado da proposta não é mais do que uma verbalização que vem, se calhar no Chat GPT com chavões de modernização, digitalização e outras coisas que, efetivamente, não estão praticáveis dentro dos serviços municipais.”
Ricardo Silva – Amar e Servir Braga
A crítica sobe de tom quando o tema é o poder político. Ricardo Silva vê nesta reorganização uma tentativa clara de concentrar poder total na figura do presidente, recusando o que chama de perpetuação de um estilo de governação fechado. O vereador independente contrapõe esta postura com a necessidade de uma “abertura democrática” e traça um paralelismo histórico severo, alertando João Rodrigues que ceder à tentação de controlar tudo é o primeiro passo para o autoritarismo.
Do lado do Partido Socialista (PS), a crítica desdobra-se em duas frentes: a gestão de recursos humanos e a gestão financeira. Primeiro, Pedro Sousa lamenta que esta alteração profunda tenha sido feita ignorando quem melhor conhece a casa. O vereador afirma saber que os próprios diretores municipais foram afastados do processo, apesar de terem contributos para dar.
De seguida, o socialista ataca a consequência desta gestão: o “esvaziamento” da competência técnica da câmara para justificar uma explosão na despesa com outsourcing. Pedro Sousa acusa a gestão da coligação Juntos Por Braga de ter multiplicado os custos com serviços externos de forma exponencial desde que o PS saiu do poder na autarquia bracarense.

“Quando o Partido Socialista deixou a Câmara Municipal, em 2013, tinha dois milhões de euros de contratações e serviços externos. Nos últimos 12 anos, este valor foi multiplicado em determinados orçamentos por oito, por nove, por 10, algumas vezes. Quando externalizamos serviços e deixamos de ter determinado tipo de competências, estamos a tirar valor à estrutura municipal e, com isso, a aumentar a estrutura de custos.”
Pedro Sousa – Partido Socialista
Em sentido contrário, o Chega aprova a intenção teórica de reduzir a estrutura, mas mantém-se cauteloso quanto à execução prática. Filipe Aguiar afirma que o partido “vê com bons olhos” a medida, mas defende que o executivo deveria ser ainda mais ambicioso na redução da máquina administrativa, uma vez que o número de pessoal “está muito acima do que é necessário”. O vereador garante que o partido vai fiscalizar se este “emagrecimento” da estrutura municipal tem, de facto, consistência, assegurando que estarão “atentos” e vão “acompanhar de perto este anúncio”.
Rodrigues responde: “Poupança de 100 mil euros”
Confrontado com as críticas, João Rodrigues desdramatiza. Em declarações à RUM, o autarca considera a reestruturação “absolutamente natural” para quem detém o poder executivo e pretende “imprimir a sua visão”, focada agora na relação com o cidadão e nas novas tecnologias.
Respondendo diretamente à acusação de despesismo, o presidente garante que a nova orgânica reduz o número de chefias e vai gerar poupança aos cofres da autarquia.

“Nós somos dos 10 maiores municípios do país, o que tem menos unidades orgânicas dirigentes com esta reestruturação que agora apresentamos. A título quase de curiosidade, mas que também não é despiciendo, [a medida] permite-nos poupar mais de 100 mil euros/ano em salários com cargos dirigentes. Mas o mais importante é que a câmara funcione melhor.”
João Rodrigues – Presidente da CMB
São João: Falta de “Peso Cultural” e de Negociação
A nova equipa da Associação de Festas de São João foi anunciada na passada sexta-feira, através de comunicado oficial da autarquia. Ana Daniela Pereira sucede a Firmino Marques na presidência da estrutura.

A escolha, no entanto, não colhe a unanimidade dos vereadores da oposição, que apontam falhas, tanto no perfil da nova liderança das festividades, como na forma como o processo foi conduzido.
Ricardo Silva questiona a aposta num perfil técnico em detrimento de uma figura com maior peso institucional e cultural. Recorda lideranças passadas, como as de Rui Ferreira e Firmino Marques, para sublinhar que as festas do São João de Braga exigem um conhecimento profundo da tradição. Para o vereador, quem estiver à frente das festas deve perceber “das questões tradicionais e culturais” e saber “aportar o grau de modernidade que as festas precisam”. O primeiro eleito pelo ASB manifesta dúvidas sobre se a nova equipa possui o perfil necessário para assegurar esse legado.
O Partido Socialista centra a crítica na ausência de diálogo. Pedro Sousa aponta o dedo a João Rodrigues por avançar com escolhas de forma isolada, ignorando que o atual executivo, composto por 11 elementos, governa sem maioria absoluta. O vereador do PS defende que a governação deve assentar numa “construção mais coletiva” e num quadro de auscultação que, na sua perspetiva, permitiria ter umas festas “mais ecléticas” e “mais abrangentes”.
Já o Chega, pela voz de Filipe Aguiar, exige uma mudança radical de rumo face às edições anteriores das festividades. O vereador critica o que considera ser uma excessiva influência externa na programação e defende um regresso à identidade portuguesa da romaria, pedindo o fim do que classifica como um “São João abrasileirado”.
Autarca defende “experiência” da nova equipa
Na resposta às dúvidas sobre o perfil da nova liderança, João Rodrigues é perentório a defender a escolha de Ana Daniela Pereira. O edil rebate o argumento da falta de memória institucional, sublinhando que a nova presidente trabalhou diretamente com as referências citadas pela oposição. Destaca ainda que é “alguém que tem uma capacidade de trabalho muito grande e que é respeitada pelos pares.”
O autarca realça ainda a representatividade dos restantes órgãos sociais, que integram o Cabido da Sé e a Associação Empresarial de Braga (AEB), garantindo, na sua visão, o equilíbrio entre o “cumprimento das tradições” e a inovação.
A RUM procurou uma reação de Rui Rocha às mesmas questões, mas o vereador eleito pela Iniciativa Liberal (IL) não se mostrou disponível para prestar declarações.
A reunião desta quarta-feira está agendada para as 14h30, no Fórum Braga. A ordem de trabalhos está disponível na página da autarquia.
