Fábrica de IA. Guimarães é centralidade no novo ecossistema europeu de Inteligência Artificial

As entidades públicas, startups e pequenas e médias empresas portuguesas, cujos objetivos estratégicos passem pela inovação e domínio da Inteligência Artificial (IA) podem contar com suporte técnico e apoio ao desenvolvimento acelerado da Fábrica de IA BSC, em Barcelona, já a partir de setembro.
A infraestrutura, inserida num ecossistema de 19 fábricas compostas por Estados-Membros e a Comissão Europeia, conta com o investimento de Espanha, Portugal, Roménia e Turquia, e será a primeira do rol a ter a plataforma computacional instalada.
Sem fins lucrativos, a fábrica oferece sobretudo a infraestrutura e o apoio técnico essencial para o desenvolvimento do projeto. O upgrade do supercomputador MareNostrum 5 para suportar este trabalho situa-se na ordem dos 130 milhões de euros, valor para os qual Portugal contribuiu com 12 ME, o que dá acesso a uma quota de 9%.
De acordo com João Nuno Ferreira, coordenador geral da Fundação para a Computação Científica Nacional (FCCN), a entidade da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) responsável pela articulação do projeto em Portugal, a fábrica tem como objetivo principal “acelerar o processo até ao momento de inovação”, altura em que o produto está pronto a entrar em operação. “O suporte técnico é considerado aqui uma peça central”, acrescenta.
“Quando falamos de inovação, muitas vezes os dados são a alma do negócio portanto, não é assumido que os dados das PMEs e das startups tenham de ser partilhados.”
A integração no projeto é gratuita, mas está dependente de uma entrevista inicial para definir o nível de maturidade da equipa de desenvolvimento e da ideia a acelerar.
O processo é em muito parecido com uma linha de fábrica. Depois da entrevista inicial, existe um período de formação e de onboarding até chegar, finalmente, à publicação. O projeto é acompanhado em todos os momentos e passa por várias fases e ciclos de feedback.
Apesar de estar ainda numa fase inicial, cerca de um centena de empresas nacionais, com vários níveis de maturidade, já estão integradas na infraestrutura.
Nós temos desde startups muito maduras, que têm nos seus quadros doutorados que já trabalharam com supercomputadores em Portugal, em outros países, sabem perfeitamente o que querem, já têm os dados, já têm o modelo, já têm a ideia. E temos também o outro extremo, startups que têm essencialmente uma ideia, não têm os dados, ou não sabem sequer onde estão os dados, e essas têm que fazer um percurso um pouco mais longo e requerem uma abordagem diferente.”
Em discussão desde 2024, este projeto surge da necessidade já reconhecida, de conter e proteger os dados dentro do espaço europeu e ganhar independência em relação a fornecedores de IA de outras regiões.
Segundo o responsável, apesar de atrasado, este “é o primeiro passo que a Europa dá na direção de fechar um pouco o fosso que existe entre a Europa e outros países”, como é exemplo os Estados Unidos da América que recentemente limitou o uso de dois modelos avançados de inteligência artificial desenvolvidos pela Anthropic.
Além disso, este é também um primeiro passo para preparar as empresas europeias, e sobretudo as portuguesas, para o domínio da IA e inovação nesta área.
“Os valores de investimento que estão aqui em jogo ainda são pequenos em relação ao que se vê do outro lado do Atlântico, mas é algo que nos permite desenvolver, dentro de Portugal, modelos e soluções para as nossas PMEs e startups.
Para Raul Fangueiro, pró-reitor para a Inovação, Empreendedorismo e Transferência de Conhecimento da Universidade do Minho, esta iniciativa é a prova de que a IA deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar um termómetro da competição mundial.
Também para o professor, a Europa enfrenta hoje um desafio estratégico que é o de “garantir a sua soberania tecnológica num mundo cada vez mais competitivo” e, como tal, é imperativo apostar nas infraestruturas científicas, no talento qualificado e inovação e colaboração internacional.
De acordo com o docente, o crescente sucesso de Portugal nestas áreas tem também que ver com o facto de Guimarães ser um exemplo de integração e da aposta nestes domínios.

“A história mostra-nos que as grandes revoluções tecnológicas não acontecem no vazio, acontecem em ecossistemas capazes de articular conhecimento, empresas, infraestruturas e instituições. E nesse contexto, Guimarães constitui um caso particularmente interessante.”
Presente na sessão, esteve também o Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, que enquadrou a iniciativa na estratégia do concelho fazer da sua história uma alavanca para o futuro, acrescentando ao legado de Berço da Nação uma nova dimensão de progresso, conhecimento e competitividade, capaz de fazer de Guimarães um verdadeiro Berço da Inovação.
O autarca sublinhou que a instalação da futura Fábrica de Inteligência Artificial, a existência do supercomputador Deucalion e o investimento superior a cinco milhões de euros na criação de um novo centro de dados em Azurém representam uma oportunidade estratégica para o território e constituem importantes fatores de competitividade para as empresas.
“A mensagem principal deste dia é clara: Guimarães e a nossa região dispõem hoje de instrumentos decisivos para o seu futuro. A Fábrica de Inteligência Artificial, o Deucalion e o novo centro de dados colocam-nos na linha da frente da inovação tecnológica e criam condições únicas para que as nossas empresas inovem mais depressa, criem mais valor e compitam com sucesso nos mercados internacionais”.
A sessão contou ainda com a apresentação de quatro case studies de projetos portugueses, uma mesa-redonda subordinada ao tema ‘IA e Supercomputação ao Serviço da Inovação’ e uma visita-guiada às instalações do Deucalion.


