Eleições AAUMinho. Envolver estudantes nas soluções e apostar na transparência pode ajudar a combater abstenção

Falta de identificação com as candidaturas, desvalorização da participação dos estudantes e a perceção de que as decisões importantes não serão tomadas pela AAUMinho poderão ajudar a justificar os números elevados de abstenção nas eleições para os órgãos sociais da Associação Académica. Em 2024, mais de 88% dos cerca de 20 mil estudantes da UMinho […]

Falta de identificação com as candidaturas, desvalorização da participação dos estudantes e a perceção de que as decisões importantes não serão tomadas pela AAUMinho poderão ajudar a justificar os números elevados de abstenção nas eleições para os órgãos sociais da Associação Académica.

Em 2024, mais de 88% dos cerca de 20 mil estudantes da UMinho não votou. Edna Costa, professora de Ciência Política na EEG e co-autora do estudo “A Participação Política dos Jovens em Portugal” financiado pela Gulbenkian, diz, em entrevista À RUM, que “esta desmobilização em torno do voto por parte dos jovens é um espelho da participação convencional juvenil em termos nacional”.

“Não são apenas as taxas de abstenção altas que nos podem levar à conclusão que os jovens são apáticos”

Apesar da facilidade associada ao processo de votação, que é totalmente online, persiste “a baixa motivação para participar”. Edna Costa diz que se deve refletir e procurar entender “onde está a participação ativa dos jovens”. “Não são apenas as taxas de abstenção altas que nos podem levar à conclusão que os jovens são apáticos e não têm qualquer interesse pela política de uma forma mais generalizada. O nosso foco devia também mudar um bocadinho para procurarmos as formas de participação ativas que existem no terreno por parte dos jovens e por parte dos estudantes da UMinho”, acrescentou.

Segundo a investigadora, “há vários fatores” que podem justificar este alheamento. “Há uma falta de identificação com as candidaturas, as listas candidatas são vistas como ‘mais do mesmo’, há uma baixa percepção de competitividade entre as listas, é como se nós partíssemos do princípio que já sabemos quem vai ganhar e independentemente de quem ganha não teremos grandes alterações”, começou por evidenciar Edna Costa. O facto de uma parte do eleitorado considerar que “a associação académica está muito distante dos problemas do dia-a-dia dos estudantes e a percepção que as decisões importantes na verdade nunca vão ser tomadas pela associação académica, mas estão fechadas no edifício da reitoria, são percepções que não contribuem para uma mobilização neste tipo de eleições”.

No contexto académico, Edna Costa considera ainda oportuno analisar os grupos de estudantes que estão “muito mais focados na frequência universitária como uma passagem para o mercado de trabalho”, bem como os estudantes que estão “sobrecarregados, com cargas horárias pesadas, os trabalhadores-estudantes e os que têm muitas dificuldades na mobilidade”. Nestes casos, “o foco está muito menos neste envolvimento da participação cívica dentro da universidade”. “Todos estes fatores acabam por se acumular e resultar em algum distanciamento em relação à associação académica, não conhecendo muito daquilo que a associação académica faz e até o potencial impacto da associação académica na governança geral da Universidade”, apontou ainda, referindo que estes fatores podem justificar a “desmobilização” em torno do voto.

“Envolver os estudantes na construção das soluções” pode ajudar a combater a taxa de abstenção

Não há uma solução milagrosa para combater este afastamento, mas Edna Costa lembra que “a população jovem pretende apostar em causas mais concretas e de proximidade”, como sejam os problemas de alojamento ou de transporte. Nesse sentido, será necessário apostar em “campanhas que ao longo do ano consigam ter pequenas vitórias, mais rápidas e mais visíveis, que mostrem trabalho feito”.

“A informação tem que passar necessariamente pelo online, mas não pode ser uma comunicação apenas utilizada para anunciar decisões que já estão tomadas ou iniciativas que já foram feitas”, afirmou.

Edna Costa acredita que a comunicação deve envolver os estudantes nas decisões, através da “consulta sobre prioridades, numa lógica muito de cocriação”. “Temos de trazer os estudantes para a construção das soluções, e não apenas anunciar as decisões que a associação já tomou, porque isso acaba por alimentar uma sensação de alheamento do resto da comunidade”, frisou.

A investigadora explica ainda que “os jovens preferem estruturas menos hierarquizadas, com um exercício de poder mais horizontal”. “Quando inquirimos os jovens acerca dos partidos políticos, eles dizem-nos que o associativismo é mais atraente, porque sentem que têm estruturas mais horizontais, onde podem ser ouvidos em igualdade de circunstâncias”, apontou.

A Associação Académica deve, por isso, “apostar na transparência, em grupos de trabalho abertos à comunidade académica e não apenas centrados nas estruturas diretivas”. Este “não é um plano de curta duração, mas de médio-longo prazo”.

A elevada taxa de abstenção em eleições para Associações Académicas parece ser um problema generalizado. Por exemplo, em 2024, as eleições para a Associação Académica da Universidade de Aveiro contaram com uma taxa de abstenção acima dos 83% e para a Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico superou os 90%.

Aliás, o problema ultrapassa fronteiras. Se analisarmos os dados disponíveis, referentes à Queen Mary University of London, em mais de 26 mil estudantes, votaram cerca de 21%.

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Liliana Oliveira
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