Desaparece um escritor “torrencial, figura inesquecível da literatura portuguesa”

António Ferreira, autor do programa Livros com RUM, classifica-o como um escritor “torrencial”. Ao longo de tantos anos de um programa radiofónico semanal dedicado à literatura, António Ferreira acabou por nunca entrevistar o escritor que faleceu esta quinta-feira aos 83 anos, mas acompanhou sempre o seu trabalho.
À RUM, começa por afirmar que António Lobo Antunes “foi um escritor torrencial”. “Não chegou muito cedo à literatura, mas de qualquer dos modos o que fica registado é que depois de começar não parou”, assinala.
Notando como uma das evidências da sua obra literária a experiência na Guerra Colonial, Ferreira admite que essa poderá muito bem ser a “mais interessante”.
“Aquilo que me interessa muito dizer é que há uma experiência que o marca profundamente, que foi a Guerra Colonial e muita da obra do António Lobo Antunes, talvez a mais interessante, é a maneira e o modo como ele literariamente trabalhou essa experiência dos anos 71, 73, à volta disso, que ele viveu em Malanje, em Angola, e depois transpôs isso para os livros, para a obra dele e esse é um elemento simbólico, literário, trabalhado de uma forma única que o irá realmente tornar uma figura importantíssima e inesquecível da literatura portuguesa dessa segunda metade do século XX e século XXI”, analisa.
Nestas breves declarações telefónicas ao final desta manhã, e quando questionado sobre se o que faltou efetivamente na carreira literária de António Lobo Antunes foi o Prémio Nobel da Literatura, António Ferreira recorda que “sempre se lhe colocou essa pergunta, sempre se incentivou a saber a sua opinião” sendo que a “a dado passo ficou na expectativa, mas depois percebeu que provavelmente estavam outras variáveis dentro da equação”. A partir desse momento, Lobo Antunes começa a relativizar e lança até algumas palavras mais “agressivas contra o Comitê Nobel e o prémio Nobel da Literatura”.
“A rivalidade António Lobo Antunes – José Saramago”

Ainda sobre o Prémio Nobel da Literatura, António Ferreira admite que “há muitas leituras possíveis” até porque “também em Portugal sempre se alimentou uma pequena rivalidade entre Lobo Antunes e Saramago”.
“Havia os saramaguianos e também aqueles que apaixonadamente defendiam a obra e defenderam e continuarão a defender a obra de António Lobo Antunes”.
Por isso, António Ferreira acredita que Lobo Antunes “apreciou imenso alguns prémios que recebeu”, incluindo o reconhecimento em França, uma vez que tinha uma particular afeição pela cultura francesa e a literatura”.
“Nunca foi uma coisa que o marcasse pela negativa. Marcava-o em diferença porque quer se queira, quer não, a certificação do prémio Nobel dá sempre um certo verniz à obra, um certo brilho, quanto mais não seja pelas questões publicitárias”, acrescenta.
Sobre o homem para lá do escritor, António Ferreira sublinha as “opiniões desempoeiradas e às vezes muito a contra a corrente”.
António Lobo Antunes (Benfica, Lisboa, 1 de setembro de 1942 – 5 de março de 2026) foi um escritor e médico psiquiatra português.
Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu, durante vários anos, a profissão de médico psiquiatra.
Em 1970 foi mobilizado para o serviço militar. Embarcou para Angola no ano seguinte, tendo regressado em 1973.
Em 1979 publicou os seus primeiros livros, Memória de Elefante e Os Cus de Judas, seguindo-se, em 1980, Conhecimento do Inferno. Estes primeiros livros são marcadamente biográficos, e estão muito ligados ao contexto da guerra colonial; imediatamente o transformaram num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional. Todo o seu trabalho literário tem sido, ao longo dos anos, objeto dos mais diversos estudos, académicos ou não, e dos mais importantes prémios, nacionais e internacionais.
A sua obra encontra-se traduzida em inúmeros países.
