Cuidadores Informais. O pilar invisível que sustentou o SNS na pandemia

A pandemia de COVID-19 testou os limites da saúde global, mas em Portugal, uma fatia decisiva da resposta não aconteceu nas urgências: aconteceu dentro das casas dos portugueses. Um estudo qualitativo realizado com dez cuidadores informais revela como as instituições de saúde se apoiaram fortemente nos familiares dos utentes para suportar a pressão do momento.
Autor da dissertação no âmbito do mestrado em Gestão de Unidades de Saúde, Simão Machado apercebeu-se desta mudança de paradigma logo na sua prática diária. O enfermeiro relata que os familiares começaram a ficar com a responsabilidade de executar tarefas técnicas e de vigilância outrora destinadas exclusivamente a profissionais de saúde.
“Sou licenciado em enfermagem, e cada vez mais, ao longo do tempo, com o decorrer da minha prática clínica, fui percebendo que os cuidadores informais iam ficando cada vez mais sobrecarregados com algumas tarefas que anteriormente iam sendo desempenhadas por profissionais de saúde.”
Esta transferência de responsabilidades revelou-se estrutural. O relatório sublinha que o Serviço Nacional de Saúde se sustentou, em grande medida, numa resiliência partilhada com as redes familiares e comunitárias. Ao assumirem a vigilância clínica autónoma, os cuidadores permitiram descongestionar os Cuidados de Saúde Primários e as unidades hospitalares.

“Para que os profissionais de saúde pudessem dar uma resposta adequada e segura nos hospitais, foi fundamental que os cuidadores informais em casa, nos seus domicílios, pudessem dar continuidade a esses cuidados que eram prestados inicialmente nos hospitais e nos centros de saúde.”
Simão Machado
(Fotografia: Simão Machado, autor do estudo, com o orientador da investigação, professor Marco António Catussi Paschoalotto)
Contudo, assumir a prestação contínua de cuidados resultou numa exaustão profunda. O documento académico aponta para níveis preocupantes de ansiedade, isolamento e privação de apoio. O autor do trabalho sublinha que o choque de assumir este papel deixou marcas que perduram.
“Eu acredito que todos eles tenham passado por um período de burnout, muitos deles referem que sentem, ao dia de hoje ainda, que precisam de ajuda psicológica para algumas questões que ficaram por resolver no passado.”
Para evitar o colapso destas famílias no futuro, o estudo propõe a criação de programas de formação e a integração plena nos mecanismos de governação local. No papel, o Estatuto do Cuidador Informal, aprovado em 2019, já prevê várias destas respostas , mas as barreiras burocráticas e as assimetrias geográficas continuam a impedir o acesso a direitos básicos.
“Tudo o que eu sugiro, como algumas sugestões de resposta para apoiar o cuidador informal, elas já estão criadas, essas medidas, só que a questão é que o acesso ao estatuto de cuidador informal ainda é muito dificultado. As diferenças geográficas também dificultam muito o acesso a essas medidas.”
A tese “Para além da COVID-19: que papel tiveram os cuidadores informais na resiliência do sistema de saúde português?” foi orientada pelo professor Marco António Catussi Paschoalotto, na Escola de Economia, Gestão e Ciência Política. O trabalho conclui que proteger quem cuida deixou de ser apenas um dever ético, assumindo-se como uma estratégia organizacional urgente para assegurar a sustentabilidade do ecossistema de saúde nacional.
