Carrossel de gerações. Idosos e crianças vimaranenses partilham experiências no ‘Reino da Diversão’

É certo que esta não é a atividade mais radical que já tiveram a oportunidade de experimentar e, para muitos, não é a primeira vez que andam num carrossel ou se aventuram numa corrida de carrinhos de choque.
Mas, para os idosos do programa municipal ‘Vida Feliz’, visitar o ‘Reino da Diversão’, mesmo que só uma vez por ano, é a oportunidade de experimentar algo que nunca tiveram a possibilidade de fazer.
Desde 6 de fevereiro que o Multiusos de Guimarães, espaço que bem conhecem, quer seja das aulas de dança, pilates, ginástica, quer seja pelas atividades lúdicas e dias temáticos, está pintado com luzes, música e diversões. Numa altura em que a chuva abunda e as festas populares na região se contam pelos dedos de uma mão, a iniciativa afirma-se como o evento familiar de inverno na região do Minho.
Antes sequer de entrarem no espaço, cá fora já têm um vislumbre do que podem encontrar lá dentro. Um carrossel ocupa praticamente toda a entrada e, mesmo fechado, consegue despertar a curiosidade e o entusiasmo de todos os que passam ao seu lado.
No interior, as diversões são mais contidas em tamanho, mas estão por toda a parte. Trampolins, simuladores, pista de gelo, carrosséis e carrinhos de choque, cada um com as próprias luzes, músicas, apitos e ruídos que se vão misturando com os risos e as conversas dos vários grupos que se vão aglomerando entre diversões.

Os carrinhos de choque são o epicentro da popularidade e, por ordem de proximidade, todas as outras diversões à volta.
Não há regras explícitas de etiqueta, tampouco de como se devem divertir. As pessoas correm pela pista para ver quem apanha o primeiro carro vazio; quando o lugar do pendura não está reservado, o primeiro a ocupá-lo é quem fica até ao final da volta, tenha afinidade ou não com o condutor.
Depois de três voltas seguidas, Joana Almeida cedeu o lugar a outras duas colegas. Não foi com grande vontade que o fez, mas confessa que com elas, a atividade ainda lhe traz mais “prazer”.
Esta é mais uma estreia para a sexagenária que entrou para o programa ‘Vida Feliz’ apenas há sete meses. Diz que todos os dias têm sido diferentes, mas o sentimento é muito semelhante.
“Isto faz-nos bem à cabeça. Ainda bem que há estas atividades para nos distrairmos. A gente esquece a vida, tudo!”
Terminada mais uma corrida, Luísa Novais e Maria Oliveira aparecem logo atrás. Não se largam, exceto quando uma delas quer fazer coisas mais arriscadas. São “amigas há muitos anos” e aproveitam estes momentos para se divertirem fora de casa e longe dos maridos.

Conheceram-se na ginástica, outra atividade dinamizada pela Tempo Livre, mas a amizade estendeu-se rapidamente para “outros sítios e outras maneiras”, fora dos encontros semanais.
Confessam que a rotina diária faz-se diferente todos os dias até porque esta é só uma das muitas iniciativas onde a dupla marca presença ao longo do ano.
‘Reino da Diversão’ abre Multiusos exclusivamente aos idosos
Este ano, mais de 660 idosos inscritos no programa de envelhecimento ativo ‘Vida Feliz’, da Tempo Livre, visitaram o Multiusos de Guimarães no dia 17 de fevereiro. Desde 2019 que o ‘Reino da Diversão’ abre exclusivamente um dia para receber os idosos “que vêm de todas as partes do município”.
Conhecem o espaço de outras atividades como as aulas de artes marciais, o pilates e a ginástica, por isso, vê-lo assim – pintado de cor e de barulho – também faz parte da experiência que a empresa municipal pretende proporcionar.
É uma atividade que, não sendo tão desafiadora como as aulas de surf e de equitação, que já tiveram oportunidade de experimentar, pretende ser “disruptiva” de uma forma especial.

Mais do que um projeto de incentivo à prática da atividade física, o ‘Vida Feliz’ é um espaço de convívio, de experimentação e combate ao idadismo que tira as pessoas “da zona de conforto e desafia-as a fazer coisas diferentes e até, em certa medida, impensáveis”.
Quem o diz é Pedro Ferreira, coordenador dos Serviços Desportivos e Sociais da Tempo Livre, que confessa ter ficado “um pouco receoso” pela receção a esta ideia, mas acabou surpreendido ao ver os “idosos acolherem bem, e até com alguma emoção” a possibilidade de poderem usufruir destes divertimentos.
“Alguns já são repetentes, portanto, já não tem o impacto da primeira vez, mas alguns deles emocionam-se, como se fossem crianças, porque nunca tiveram a oportunidade de brincar. Eles brincam uns com os outros e divertem-se a fazer coisas que nunca viveram”.
E a verdade é que, desde a inauguração, todos os anos a adesão tem sido grande, tanto por parte dos seniores estreantes como dos repetentes.
Vêm com os centros de dia, com os grupos culturais e recreativos, com as associações locais, mas rapidamente dispersam dos grupos de origem e rearranjam-se em todos os cantos do recinto.
Partilham experiências, histórias e curiosidades. Há grupos e assuntos para todos os gostos: contam-se anedotas, ouvem-se cochichos, partilham-se memórias.
Nestas andanças, ouve-se Jacinto Ribeiro lamentar não ter trazido “os netinhos”.
“Foram os dois para a escola”, confessa com a voz carregada com o peso de ter criado expectativas que não pôde cumprir. “Um deles foi obrigado, mas vem amanhã com a mãe”, acrescenta.
Na falta dos netos, aproveita a tarde com os colegas do centro e com as crianças que começam a chegar.
Crianças juntam-se a idosos para encontro intergeracional
Entram em pequenos bandos, autênticas fortalezas delimitadas e guardadas pelas educadoras, silenciosos, indistinguíveis. Chegam curiosos, a olhar para todos os lados ao mesmo tempo.
A luz, as cores e o som das três diversões à entrada do recinto chamam instantaneamente a atenção impenetrável de todos os miúdos que têm que ser guiados para longe do caminho das pessoas que atravessam o Multiusos.
É uma questão de minutos até que todos se apinhem em frente a um carrossel. Assim como os adultos, têm as suas diversões preferidas, que só abandonam obrigados pelas educadoras, para dar oportunidade aos outros colegas.
Não sabem dizer qual a diversão que preferem, mas conhecem aquela que querem experimentar a seguir.
É um dia especial porque, pela primeira vez, cerca de 80 crianças do projeto ‘Miúdos Ativos’ se juntam aos idosos no ‘Reino da Diversão’ para uma “autêntica tarde de partilha intergeracional”.
Nas palavras de Pedro Ferreira, a visita dos miúdos ao recinto, em anos anteriores, apesar de em menor número e limitado a certas instituições “sempre correu bem”, por isso, este ano a Tempo Livre decidiu abrir o Multiusos a todos os miúdos do projeto.
“Este ano quisemos fazer um bocadinho diferente, juntámos os dois grupos cá no mesmo dia. Juntamos aqui as duas extremidades etárias dos nossos projetos e criamos um encontro intergeracional”
O objetivo é simples: criar um ambiente em que os idosos reavivam memórias felizes e as crianças criem as próprias.

Além disso, os “idosos adoram crianças” e as crianças “adoram aprender” com os mais velhos. Ana Eduarda afirma com certeza porque é educadora de infância no Centro Social das Taipas e testemunha esta convivência todos os dias.
Para a educadora, estas iniciativas são muito importantes, não só porque tiram as crianças da sala de aula, e as põem em contacto com o mundo, mas também porque “há crianças que até têm algum medo” de pessoas idosas e não têm esta oportunidade de contacto direto.
Para os idosos, as vantagens são quase vitais.
“Isto é necessário para eles sentirem, de facto, que a velhice não é o fim, ainda que o seja”.

É o caso de Domingos Duarte que, por já não se contentar em participar nestas atividades sozinho, trouxe consigo outros 20 idosos. É o fundador da associação ‘Encontro de Saberes’, cujo objetivo é “simplesmente combater a solidão das pessoas mais velhas e partilhar sabedoria”.
Tem colegas com 90 anos que vivem estes momentos de uma forma especial. Ele próprio, com 75 anos, não falha uma data comemorativa. “No Carnaval aqui, no Multiusos, em diversão. No dia seguinte, estivemos no Souto”, diz.
“Dois dias na semana, temos ginástica. Temos, também, um dia de canto, em que vai lá um professor e cantamos um bocado aquelas músicas antigas”
Para Domingos, o melhor destas atividades é o convívio, mas raramente contemplam algum espaço para as crianças. Por isso, este encontro é “tão especial”.
O septuagenário diz que todos, com quem foi falando, apontam a presença das crianças como uma novidade “ótima, espetacular”. Pessoalmente, acredita que juntar as duas gerações foi “uma boa surpresa” porque nota que as crianças “aprendem e gostam de conviver com os mais velhos”.
A diversão tem local e hora marcada. No carrossel das gerações, não há lugares vagos e há sempre tempo para mais uma volta.



