‘Braga que Fica’: Hugo Delgado despe a cidade de gente e revela o silêncio do património

É um paradoxo visual. Habituado à urgência do fotojornalismo e a captar o movimento de pessoas e gestos, Hugo Delgado teve de travar a fundo. Na nova exposição ‘Braga que Fica’, patente na Comunidade Intermunicipal (CIM) do Cávado, na rua do Carmo, o bracarense apresenta um ensaio onde a cidade aparece sem gente, mas repleta de memória.
O desafio partiu do município de Braga, inaugurando uma nova fase do Concurso Municipal de Fotografia: em vez de apenas receber candidaturas, a autarquia passa a encomendar obras a autores reconhecidos para interpretar o Património Arquitetónico e Arqueológico classificado.
A “estranha vitalidade” do imóvel
No texto que acompanha a obra, Hugo Delgado explica que fotografar património classificado o obrigou a “desacelerar” e a “confrontar a estaticidade”. Foi nesse exercício de “escutar o silêncio” que o autor diz ter encontrado uma “estranha vitalidade que existe naquilo que parece imóvel”.
Ao retirar a figura humana dos enquadramentos, o fotógrafo procurou que a cidade falasse por si, revelando as camadas de tempo, cuidado e transformação que habitualmente ficam escondidas atrás da rotina. Para o autor, o maior obstáculo não foi a técnica, mas a mudança de registo.

“Passo todos os dias a fotografar pessoas, essencialmente. Eu aqui tive quase que fazer com que elas desaparecessem dos meus enquadramentos. Poucas fotografias têm pessoas nesta exposição e isso também foi uma ginástica grande para mim. Olhar para os edifícios pelos quais eu passo diariamente de uma forma diferente e tentar encontrar ângulos que fossem novos também para as pessoas que viessem ver a exposição.”
– Hugo Delgado
Um espaço de cultura na Rua do Carmo
A escolha da CIM Cávado para acolher esta mostra não é inocente. João Silva, Primeiro Secretário Executivo da entidade, sublinha a importância de abrir as portas do edifício da rua do Carmo à comunidade. Para o responsável, estas iniciativas combatem a tendência de os habitantes locais ignorarem a riqueza do seu próprio património, deixando a descoberta apenas para os turistas.
“Muitas vezes os próprios habitantes locais não têm a noção da riqueza e do valor do seu património. Conseguimos ter um olhar novo e diferente.”
Um legado para o futuro


Esta exposição marca uma viragem na forma como se documenta a cidade. Pedro Lopes, chefe de Divisão do Centro Histórico, Património e Arqueologia da autarquia bracarense, explica que o objetivo é enriquecer o acervo do Museu da Imagem com visões de autor, criando um legado artístico para o futuro.
“A Câmara Municipal de Braga, com este tipo de ações – já temos outro fotógrafo convidado – vai também, para além de poder criar exposições, edições que divulguem o património, vai também enriquecer o seu acervo de imagens fotográficas.”
O ciclo já tem continuidade assegurada: o próximo convidado será o fotógrafo José Firmino, que irá trabalhar sobre o tema da Calçada Portuguesa.
Para a vereadora da Cultura, Catarina Miranda, “Braga que Fica” distingue-se de projetos anteriores, como os Encontros da Imagem, que traziam frequentemente o olhar estrangeiro sobre a cidade. Aqui, o desafio é o da proximidade: a dificuldade de quem vive no centro em reparar nos pormenores que a rotina torna invisíveis.

“Todos nós estamos habituados a andar pela cidade e a não reparar nos pormenores que o Hugo tão bem apanha.”
– Catarina Miranda
Uma nova leitura da cidade
Entre as imagens expostas, o público é convidado a descobrir ângulos inéditos, como as traseiras da Igreja da Misericórdia ou o interior da privada Casa Cunha Reis. Mais do que um inventário visual, a exposição convida o visitante a aceitar uma nova leitura do espaço urbano: aquela que subsiste quando tudo o resto passa.
O catálogo completo da exposição está disponível em formato digital.
