Aumento do custo de vida. Comerciantes e clientes do Mercado Municipal de Braga assumem a necessidade de gerir

No Mercado Municipal de Braga, comerciantes e clientes vão sentindo as consequências do aumento do custo de vida. Em todos os casos, prevalece o lamento que a situação não parece ter fim à vista.

O impacto economico da guerra no Médio Oriente tem elevado o custo de vida em Portugal, o que obriga gerir os gastos mensais. Esta é uma abordagem adotada por alguns clientes que, na manhã desta terça-feira, passeavam e compravam no Mercado Municipal de Braga, um hábito de muitos, mas que, cada vez mais, assume contornos mais restritos.

Os caminhos da Praça , com clientes preocupados a dividir o olhar entre a carteira e os preços em permanente exposição nas várias montras.

O Mercado Municipal de Braga é, para muitos, um destino habitual. Foram tempos em que as visitas eram recorrentes, com um regresso a casa mais ‘pesado’ e com os sacos mais cheios. Agora, “é preciso saber gerir”.

Maria Teresa aproveita a manhã para comprar fruta. Mora sozinha, com visitas esporádicas do filho.

Escolhe um cacho de bananas, com um olho na cor e outro no preço. Diz que, agora, “está tudo muito caro” e, por isso, as visitas ao mercado acontecem com menos frequência. Emociona-se ao referir que é preciso “sujeitar-se àquilo que tem”.

As queixas são recorrentes entre os reformados, que fazem contas aos gastos mensais com reformas, muitas vezes, insuficientes.

É o caso de Francisco Dantas, cliente assíduo nas bancas de comércio local bracarense. Admite sentir diferença na evolução dos preços, mas não pode deixar de comprar: “Não podemos deixar de comer só porque a vida encareceu.”

Júlia vende legumes todas as terças-feiras, quintas e sábados. ‘Puxa a brasa à sua sardinha’ e defende que o peso do aumento do custo de vida se sente de forma mais acentuada na compra de peixe e carne. Conceição Rodrigues, cliente que por ali passava, não tem dúvidas: “é em tudo”.

Leva para casa produtos da peixaria, com a sensação de que a quantidade não justifica o gasto.

As compras podem ser recorrentes, mas agora com quantidades adquiridas progressivamente menores. “Sente-se a diferença”, afirma quem compra.

Reduzir quantidades, optar por produtos mais baratos e diminuir o número de visitas ao mercado são algumas das opções adotadas por quem não tem “margem de manobra”

Muitos reformados recordam com saudade o passado o tempo em que havia a possibilidade de trazer para casa sacos mais pesados. Mas, no final de contas, “é assim a vida”, assumem. Rosa, Conceição, Francisco e Maria Teresa limitam-se ao pouco que têm.

Segundo a Deco Proteste, o cabaz alimentar nunca esteve tão caro. Ultrapassou esta semana os 254 euros e, agora, numa subida superior a 12 euros face à primeira semana deste ano, e mais 66 euros face ao arranque de 2022, período anterior ao começo da guerra na Ucrânia.

Comerciantes em alerta. “Nunca pratiquei preços tão altos”

O aumento do custo de vida fez-se, também, sentir em quem vende na Praça. Muitos comerciantes viram-se obrigados a aumentar os preços nas últimas semanas e admitem uma mudança de comportamento dos clientes: uns compram em menores quantidades, outros em menos ocasiões.

Nas bancas de venda de frutas e legumes, a comerciante Rosa Peixoto recorda meses “difíceis” que obrigaram à subida dos valores praticados. O problema volta-se, depois, para as diferenças praticadas: “se subirmos muito, os clientes não levam”, alerta.

Rosa Peixoto (à esquera)

Ainda assim, há motivos para sorrir. A tendência de subida de preços aplica-se, também, nos hipermercados e, por isso, os clientes recorrem às pequenas bancas de comércio local, na esperança de encontrar opções mais rentáveis.

Rosa Peixoto sabe disso, mas tenta não deixar que influencie os preços praticados na sua montra.

Junto à Fonte da Praça, no centr do espaço, encontra-se a banca de legumes de Maria Teresa, a comerciante mais velha. Já lá trabalha há mais de 70 anos, tendo até marcado presença na inauguração do espaço, em 1956.

Os joelhos não permitem grandes movimentos, mas, garante, que “a coisa regula”. Quem a conhece sabe que a bondade está sempre presente, acompanhada do “gosto por conversar”.

Maria Teresa, sentada, como sempre, junto dos seus produtos

Maria Teresa reconhece que “as coisas já não são como antes”, mas, nas últimas semanas, não sentiu a necessidade de aplicar uma grande subida nos preços. “O tomate cherry e a ervilha subiram, mas os preços não estão, verdadeiramente, muito elevados”, defende.

Ainda assim, sente que o movimento na Praça diminuiu com o tempo. Sorri e reconhece que “nem sempre há dinheiro”.

As dificuldades chegam, também, ao talho. A carne de novilho, por exemplo, aumentou 121% desde que a Deco Proteste iniciou a monitorização.

Manuel Lopes vende carnes na primeira loja assim que se entra, do lado esquerdo, há mais de cinquenta anos. Hoje, lamenta ter de aplicar os valores mais altos desde que ali trabalha.

O talho de Manuel Lopes

Sabe que as pessoas fazem gestão daquilo que compram, mas, neste caso, sem diminuir o número de idas ao talho.

“Uma vitela, que há um ano atrás custava 500 euros, hoje custa mil. Por isso é que a carne de bovino disparou de uma forma assombrosa. O que eu comprava há um ano com dois mil euros, hoje tem que ser quatro mil.”

As diferenças nas encomendas para o talho de Manuel Lopes, comparativamente ao ano passado

A subida dos preços dos combustíveis foi um dos fatores que impulsionou a subida nos bens alimentares. Os comerciantes destacam os efeitos negativos, tanto na encomenda de produtos para revenda, como no poder de compra dos clientes.

Daniel Oliveira orienta a peixaria do Mercado Municipal. Sabe que, noutros tempos, os clientes tinham “mais possibilidades, mais poder de compra”.

São dificuldades que se manifestam nas venda diárias. Os clientes “começam a vir menos vezes”.

Emília Santos foi uma das trabalhadores do espaço que se viu obrigada a aumentar os valores praticados. Desconfia que o motivo esteja na subida de preço dos combustíveis, tendo em conta que, nesta altura, os produtos vendidos são praticamente todos encomendados de fora.

Por esta altura, resta esperar pelo tempo das colheitas, dentro de, aproximadamente, um mês, para voltar a tornar as montras mais amigáveis. Quando Emília tiver, novamente, produtos da sua horta para vender, os preços vão descer, e “à fartura”.

Emília Santos dentro da sua banca

Os tempos mudaram, mas, para Emília Santos, os clientes regulares mantêm-se assíduos. “Quem gosta de vir ao Mercado, vem“, diz a vendedora.

Os lamentos são partilhados de ambos os lados da “moeda”, seja por se verem obrigados a subir os preços, ou pela necessidade de gerir os gastos. Ainda assim, a vida (mesmo que mais cara) continua, porque “assim tem de ser”.

*editado por Marcelo Hermsdorf

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