Arqueóloga da UMinho desmonta mitos sobre o Antigo Egipto: das pirâmides aos “remédios” de múmia

A teoria ‘Hollywoodesca’ é uma coisa, a prática pode ser bem diferente. Falamos do quê? Da realidade do Antigo Egipto que era muito mais progressista daquilo a que a ficção nos habituou. Esta é, pelo menos, a premissa do curso breve “Entre deuses, pirâmides e faraós: uma introdução ao Antigo Egipto”, que decorre online até 31 de março.
A formação é orientada por Cláudia Barros, arqueóloga e investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho (CEHUM), que divide a sua atividade académica com a docência na Universidade Pontifícia Bolivariana, na Colômbia.
Em entrevista ao UMinho I&D, a investigadora explica que o curso nasceu de uma “paixão desmedida” e da necessidade de dar uma resposta mais aprofundada aos estudantes de História e Arqueologia, cujos currículos nem sempre permitem explorar a fundo a Egiptologia.
Trabalhadores com turnos de quatro horas
Um dos principais objetivos das sessões é “esclarecer polémicas”, a começar pela construção das pirâmides. Contrariando a narrativa bíblica e cinematográfica de que os monumentos foram erguidos por escravos, Cláudia Barros afirma que se tratavam de trabalhadores pagos, com condições laborais surpreendentes.
“As pessoas que construíram as pirâmides até tinham uma vida melhor do que nós, sinceramente”, afirma a arqueóloga. “Eles estavam divididos em turnos que trabalhavam entre quatro a oito horas. E os que trabalhavam quatro horas, tinham duas horas de manhã e duas horas à tarde. Isto hoje em dia, para nós, não acontece”.
Uma sociedade onde “a mulher escolhia o marido”
Outro mito derrubado é o da submissão feminina. A sociedade egípcia era, segundo a investigadora, “bastante mais aberta” do que muitas sociedades atuais.
“A mulher egípcia fazia praticamente o que queria”, sublinha Cláudia Barros, destacando que podiam gerir propriedades, testemunhar em tribunal e divorciar-se. “Um dado curioso é que era a mulher quem escolhia o marido. Não havia aquela obrigação de ser o pai, o cabeça de família, a escolher a pessoa”.
A “Egiptomania” e o pó de múmia
O curso aborda ainda o fenómeno cultural da “Egiptomania”, que atravessou séculos na Europa, desde as campanhas de Napoleão até à cultura pop. Este fascínio teve, contudo, episódios macabros, como o uso de múmias na medicina do século XIX.
“Havia o chamado pó de múmia (…) que se vendia às pessoas comuns para tratar artrites ou dores de costas, porque achava-se que era milagroso”, conta a investigadora. Tratava-se, literalmente, de “múmias que eram incineradas” e colocadas em frascos.
O curso decorre em regime pós-laboral, às terças-feiras.
Sobre a investigadora
Cláudia Barros é licenciada e mestre em Arqueologia pela Universidade do Minho, onde se encontra atualmente a realizar o doutoramento em Ciências da Cultura, com investigação focada na 18.ª Dinastia Egípcia.
Além de investigadora do Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM), é docente na Universidade Pontifícia Bolivariana (Colômbia) e delegada em Portugal da Associação Galega de Egiptologia. O seu percurso “de terreno” inclui a participação em escavações arqueológicas em Marrocos (Ksar Sghir) e em diversos locais em Portugal, como Boticas e Guimarães.
Apaixonada pela divulgação de ciência para todos os públicos, é autora do livro infantil As aventuras do pequeno Ramsés e criadora do projeto digital “Debaixo dos pés da Esfinge“, onde partilha regularmente conteúdos sobre o Antigo Egipto.
