Aproximação da Hungria à UE pode demorar, mas o reconhecimento da derrota de Orbán é um “bom indício”

Para José Palmeira é importante que o bloco europeu compreenda a situação diplomática do país, face à relação estreita entre Orbán e Putin, e os condicionamento que daí poderão advir.

A aproximação da Hungria à União Europeia, agora que Viktor Orbán saiu derrotado das eleições legislativas, pode não ser tão fácil e rápida quanto se pensa. Segundo o politólogo José Palmeira, uma das questões que mais pode limitar a diplomacia magiar prende-se com a dependência energética do país à Federação Russa.

Depois de confirmada a maioria de dois terços dos assentos no parlamento, numa eleição que chamou cerca de 80% às urnas, o novo governante húngaro assumiu restaurar a democracia no país, reativar “os mecanismos de controlo e equilíbrio” e retirar os “fantoches” do governo anterior.

No campo da diplomacia, e até do ponto de vista das relações externas, Péter Magyar já deu sinais mais óbvios de quer aproximar-se do bloco dos 27. Já referiu a vontade de querer desbloquear os fundos comunitários congelados, mas mantém-se comedido em relação à guerra na Ucrânia, recusando o envio de armas ou tropas húngaras, ao mesmo tempo que afirma o seu apoio ao povo ucraniano. É, também, mais crítico em relação à Rússia do que o antecessor.

Isto não significa, contudo, que o afastamento de Moscovo seja imediato ou até feito sem negociações.

De acordo com José Palmeira, é necessário “ter consciência que a Hungria é um caso muito específico de dependência energética da Federação Russa”, o que significa que não pode “fazer mudanças radicais como outros países fizeram”, uma vez que isto implicaria “custos maiores nos combustíveis, que depois impactam em toda a economia”.

José Palmeira fala dos possíveis condicionamentos diplomáticos que a Hungria pode enfrentar no futuro

“Tem que haver aqui um equilíbrio e uma perceção de que a Hungria de facto é um caso muito específico. Dito isto, aquilo que se espera é que haja de facto uma aproximação com as posições da União Europeia”

Para o politólogo, é importante que o bloco europeu compreenda a situação diplomática do país, face à relação estreita entre Orbán e Putin, e os condicionamento que daí poderão advir.

Trump parece ser um apoio “tóxico”

O Fidesz, agora partido da oposição, liderado por Viktor Orbán, conquistou 55 lugares no parlamento magiar. Ainda com a contagem dos votos por finalizar, o candidato assumiu a derrota, que diz ter sido “dolorosa, mas clara”.

Nas palavras do especialista, esta atitude é “um bom indício” de que Péter Magyar poderá governar sem o risco de interferências internas e, até certo ponto, externas que não se esgotam na influência Russa, mas também dos Estados Unidos da América.

Donald Trump apoiou a eleição de Viktor Orbán e admitiu até usar do poderio económico do país para ajudar a economia húngara caso o aliado ganhasse as eleições. Além disso, num dos maiores eventos da campanha, o cabeça de cartaz foi o vice-presidente norte-americano, JD Vance.

Especialista acredita que Orbán ter assumido derrota é um “bom indício” para o futuro do novo governo

Neste contexto, José Palmeira acredita que a derrota de Orbán pode ser o início de uma ideia de que o apoio dos EUA “é tóxico”, levando os partidos “a pensar duas vezes relativamente a esse apoio”.

“É verdade que nem em todos os casos isso aconteceu, como foi o de Milei na Argentina, que reforçou a sua votação, mas de uma forma geral, o discurso da administração Trump tem sido bastante crítico da União Europeia e portanto quando há uma vitória de um setor que de facto aposta no bloco europeu, isso é visto com regozijo.”

Opinião que é reforçada com o facto do governante “estar por detrás do agravamento da conflitualidade e relegado a Europa para um segundo plano”.

“Eu diria que neste momento aquilo que parece mais popular entre o eleitorado europeu é um afastamento relativamente a Donald Trump e uma autonomia da Europa”, remata.

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José Brás
José Brás

Jornalista na RUM

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