Ana Maria Serrano. “Mudar o princípio da história” para garantir direitos na infância

Voz incontornável da Educação Especial e da Intervenção Precoce em Portugal, Ana Maria Serrano viu décadas de dedicação aos direitos das crianças culminarem com a atribuição do Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Córdoba. Uma distinção ímpar que fez história: foi a 50.ª outorgada pela instituição espanhola desde 1976 e apenas a quinta atribuída a uma mulher.
No entanto, para a professora associada do Instituto de Educação da Universidade do Minho e investigadora do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC), este prémio internacional não representa um ponto final. Oficialmente aposentada desde outubro passado, Ana Maria Serrano vive hoje uma verdadeira “aposentação ativa”.
O seu ritmo de trabalho continua intenso e com os olhos postos no futuro da área. Entre a revisão de teses de alunos e a manutenção da forte ligação ao centro de investigação bracarense, a docente preside à European Association of Early Childhood Intervention (EURLYAID), integra a direção da International Society of Early Intervention e é membro do conselho consultivo da UNICEF para a Europa e Ásia.
O “bichinho” e a metáfora da casa
O interesse pela área não surgiu por acaso. Após concluir o curso de Psicologia, Ana Maria Serrano começou a trabalhar na APPACDM de Coimbra, onde ajudou a criar o primeiro centro inclusivo para crianças dos 0 aos 3 anos. A vontade de saber mais levou-a até à Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos, ao abrigo do programa Fulbright. Quando regressou a Portugal, trouxe na bagagem conhecimentos que foram fundamentais para a criação do mestrado em Educação Especial na UMinho, em 1996, um projeto pioneiro no país impulsionado juntamente com o professor Luís de Miranda Correia.
Apoiada nos avanços da neurociência, a especialista é perentória ao explicar a importância vital de intervir nos primeiros anos de vida, recorrendo a uma imagem simples para ilustrar o peso desta fase crítica.
“Os primeiros cinco anos, como nós dizemos, e agora vamos sabendo cada vez mais da neurociência, são como as fundações de uma casa. E nesses primeiros cinco anos determina-se muito daquilo que vai ser o nosso desenvolvimento futuro.”
O tapete debaixo dos pés: focar na família
Uma das grandes bandeiras da investigadora é a necessidade de uma mudança de paradigma no apoio a crianças com problemas de desenvolvimento. O modelo tradicional, focado unicamente na criança e na terapia em gabinete, deve dar lugar a uma abordagem ecológica e centrada em quem cuida.
“As famílias estão no coração da intervenção precoce”, sublinha. Quando o diagnóstico chega, a intervenção deve focar-se na capacitação dos cuidadores, para que estes possam, nas rotinas diárias, promover o desenvolvimento dos filhos, amparando-os num momento de choque profundo.
“Muitas vezes, como eles descrevem, é como se lhes tirassem um tapete debaixo dos pés. E, portanto, eles precisam de muito apoio nessas fases. Nós precisamos de criar sistemas que estejam coordenados e organizados para que as famílias se sintam apoiadas.”
Portugal como exemplo, mas com listas de espera inaceitáveis
Tendo assessorado governos por todo o mundo, Ana Maria Serrano tem uma perspetiva global privilegiada. Coloca Portugal numa posição de destaque na Europa, graças à criação, em 2009, do Sistema Nacional de Intervenção Precoce na Infância (SNIPI). Este sistema é inovador por ser universal e por congregar três ministérios (Saúde, Educação e Segurança Social), permitindo uma política de proximidade através de Equipas Locais de Intervenção.
No entanto, Serrano deixa um alerta claro: o sucesso do modelo e o aumento da identificação de casos (de 7 mil crianças apoiadas em 2011 para quase 30 mil atualmente) não foram acompanhados pelo reforço necessário de recursos humanos e técnicos no terreno.
Um dever ético e a garantia de direitos
Olhando para o futuro e para a mensagem que pretende deixar às novas gerações de educadores, psicólogos e terapeutas que se formam na academia minhota, Serrano não hesita. Exige dos futuros profissionais um compromisso que vai muito além da aplicação técnica de conhecimentos.

“Nós, profissionais que estamos nestas áreas, temos um dever forte de garantir direitos. E, portanto, eu acho que isso é a mensagem que eu deixaria: é que não se esqueçam de que não é só passarmos, é de facto garantirmos que as crianças e as famílias que apoiamos têm, de facto, os seus direitos garantidos neste processo.”
— Ana Maria Serrano
Doutoramento Honoris Causa na Universidade de Córdoba
A cerimónia de imposição do grau de Doutora Honoris Causa a Ana Maria Serrano decorreu a 5 de março, na Sala de Atos da Reitoria da Universidade de Córdoba. O evento solene contou com as intervenções do Reitor da instituição espanhola, Manuel Torralbo, e da Professora Araceli Sánchez, que atuou como madrinha da homenageada, proferindo o laudatio.
A entrevista de Ana Maria Serrano ao UMinho I&D está disponível na íntegra em podcast.



