Adolescere já apoiou mais de mil refugiados, mas alerta para “regressão” nas políticas públicas

A Adolescere, associação sediada em Braga dedicada ao apoio a crianças, jovens e famílias em situação de vulnerabilidade, já acompanhou mais de mil pessoas refugiadas desde 2020. Apesar do impacto crescente, a presidente, Carla Fernandes, alerta para uma “regressão” nas políticas públicas e para a insuficiência das respostas sociais, defendendo mais apoio do Estado e uma abordagem mais humanizada.
Em entrevista ao programa Campus Verbal, da Rádio Universitária do Minho, a responsável descreve uma instituição marcada por um princípio central: “compromisso” com quem mais precisa.
Uma missão centrada no compromisso com os mais vulneráveis
Fundada em 2015, a Adolescere nasceu com o objetivo de apoiar crianças, adolescentes e famílias em situação de risco, mas foi alargando a sua intervenção a novas realidades sociais.
“Assumimos um compromisso com as crianças, com os adolescentes e com as suas famílias em situação de maior vulnerabilidade”, afirma Carla Fernandes.
Ao longo de quase 11 anos, a associação tem sido desafiada a responder a problemáticas emergentes, nomeadamente na área das migrações e do asilo, uma vertente que ganhou peso sobretudo a partir de 2020.
Acolhimento de refugiados: mais de mil pessoas apoiadas
Desde 2020, a Adolescere já acolheu, acompanhou e integrou mais de mil pessoas refugiadas. Atualmente, gere dois centros de acolhimento em Braga:
Um centro com capacidade para 100 pessoas, onde estão atualmente 78 acolhidas; Outro com capacidade para 80 pessoas, com cerca de 50 residentes, sobretudo famílias monoparentais refugiadas.
A associação tem também registado novas dinâmicas, como o aumento de famílias monoparentais masculinas, um fenómeno até agora pouco comum.
O processo de integração inclui acesso à saúde, educação, aprendizagem da língua portuguesa e inserção profissional, sendo desenvolvido por equipas multidisciplinares já que a instituição cresceu e conta atualmente com cerca de três dezenas de profissionais.
Integração exige tempo. o modelo atual é insuficiente
Um dos principais alertas deixados pela presidente nesta grande entrevista num ano em que os órgãos sociais vão a votos, prende-se com o tempo previsto para integração: 18 meses (ou 12+6), considerado manifestamente insuficiente. “Há famílias e pessoas que precisam de muito mais tempo”, admite a responsável e também membro fundador da Adolescere.
Apesar dos limites dos programas, a Adolescere mantém acompanhamento para além desses prazos, numa tentativa de garantir continuidade e estabilidade.
Ainda assim, a integração enfrenta obstáculos crescentes, nomeadamente ao nível da documentação, que, segundo Carla Fernandes, se tornou mais difícil de obter nos últimos anos.
“Estamos mais limitados hoje do que estávamos em 2020”, afirma, apontando consequências diretas no acesso ao emprego, saúde e apoios sociais.
Exploração laboral e dificuldades reais no terreno
A responsável denuncia também situações de exploração laboral, aproveitando a vulnerabilidade dos refugiados, apesar de a experiência de contacto com empresas para a integração destas pessoas ser maioritariamente positiva.
“Há empresas que se aproveitam da fragilidade das pessoas”, refere, relatando casos em que foi necessária intervenção direta da associação para garantir, nomeadamente, o pagamento de salários.
Além disso, destaca dificuldades estruturais como a crise da habitação, que afeta tanto refugiados como a população em geral e dificulta processos de autonomia.
Apoio familiar. intervenção junto de cerca de 70 famílias
Para além da área das migrações, a Adolescere mantém a sua intervenção original através do CAFAP (Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental), onde acompanha atualmente cerca de 70 famílias.
O trabalho desenvolve-se em três eixos principais: Preservação familiar, evitando a retirada de crianças; Reunificação familiar, quando já houve separação; Pontos de encontro familiar, em contextos de conflito parental.
A instituição conta com 31 profissionais e é atualmente uma das maiores entidades do país nesta área, sendo a segunda maior ao nível do acolhimento de refugiados.
Falta de recursos e necessidade de reforço estatal
Apesar da dimensão da resposta, Carla Fernandes admite que os recursos humanos nem sempre são suficientes, sobretudo em respostas como o CAFAP, que necessitariam de reforço.
Essas limitações estão diretamente ligadas ao financiamento público:
“Só a Segurança Social poderá alterar”, afirma, sublinhando a dependência das respostas sociais face ao apoio estatal.
“Portugal precisa destas pessoas”
Num dos momentos mais críticos da entrevista, a presidente da Adolescere questiona decisões recentes do Governo, nomeadamente o pagamento de 8 milhões de euros para que outros países acolham refugiados, em vez de Portugal o fazer.
“Porque é que não permitem que estas pessoas façam e refaçam as suas vidas aqui connosco?”, questiona.
Carla Fernandes rejeita ainda discursos que associam imigração a sobrecarga dos serviços ou perda de emprego:
“É absolutamente falso. É um discurso populista que incita ao racismo e à xenofobia.”
Para a responsável, os refugiados representam uma oportunidade num país marcado pelo envelhecimento demográfico e pela falta de mão de obra.
Um apelo à empatia e à responsabilidade coletiva
A terminar, Carla Fernandes deixa uma mensagem clara dirigida à sociedade e aos decisores políticos. “Estas pessoas precisam de um olhar mais atento, mais humano”, defendendo maior empatia e solidariedade e lembra que qualquer pessoa pode, em determinado momento, enfrentar situações de vulnerabilidade.
“Aquilo que estas pessoas nos trazem é muito rico”, conclui a responsável.
