A ética do futuro. Como o transumanismo e a IA desafiam os limites humanos

O avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) e das neurotecnologias levanta questões que, até há pouco tempo, pertenciam à ficção científica. Jorge Mateus, investigador do Centro de Ética, Política e Sociedade (CEPS) da Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas (ELACH) da Universidade do Minho, dedica a sua investigação às profundas implicações éticas destas tecnologias emergentes. Em entrevista ao UMinho I&D, o especialista analisou a corrente do transumanismo, os riscos da ligação direta do cérebro às máquinas e a urgência inadiável de colocar a reflexão filosófica no centro da revolução digital.
O Corpo Orgânico como “Prisão”
Para a ideologia do transumanismo, o nosso corpo biológico não é apenas a nossa morada natural, mas sim uma limitação a ser transcendida através da tecnologia. Na sua investigação, Jorge Mateus explora a forma como esta corrente teórica encara a nossa “carne” quase como uma fonte de trauma existencial. O facto de termos um organismo suscetível ao envelhecimento e à doença é interpretado como uma prisão da qual a humanidade se deve libertar, perspetivando um futuro de mentes digitais descarregadas para plataformas de silício.
A própria antropologia transhumanista assenta precisamente neste ponto: tudo aquilo que nos limita, tudo aquilo que nos nega, condiciona as nossas possibilidades de sermos os tipos de seres que realmente somos, mas que ainda não somos. Uma das razões pelas quais nós não somos é precisamente porque estamos encarnados neste corpo de carne e osso que envelhece, que adoece, que morre.
Jorge Mateus
A superação das nossas barreiras biológicas já está em curso, especialmente através do desenvolvimento de Interfaces Cérebro-Máquina. No entanto, estes sistemas evoluíram de forma drástica e, hoje em dia, “vão para lá desta componente meramente informativa”, como explica Jorge Mateus. O investigador dá o exemplo de tratamentos avançados para a epilepsia, onde a Inteligência Artificial já não se limita a avisar o paciente, atuando de forma autónoma porque “simplesmente estimulam diretamente o cérebro e evitam que a crise ocorra”.

Ao delegar este controlo à máquina, o indivíduo “nunca tem sequer conhecimento daquilo que lhe iria acontecer”, o que gera enormes riscos para a liberdade cognitiva. Como alerta o especialista, contornar a vivência da própria doença “tem claramente implicações também na formação da identidade desta pessoa”. Afinal, justifica Jorge Mateus, “é diferente eu saber que tenho um problema e que vivo com ele e como é que me devo comportar quando o tenho de experienciar”, por oposição a uma supressão artificial e invisível do sintoma que nos afasta do nosso próprio autoconhecimento.
A Filosofia como Bússola Tecnológica
Perante o poder de intervenções radicais que poderão alterar a essência do que significa ser humano, Jorge Mateus sublinha a necessidade de adotar um modelo colaborativo e reflexivo para acompanhar quem decida recorrer ao “melhoramento humano”. Numa época amplamente dominada por gigantes tecnológicas e engenheiros de algoritmos, o investigador do CEPS é perentório ao defender que as ciências exatas precisam das humanidades como linha orientadora.
A tecnologia deve estar ao serviço do nosso florescimento e da nossa vocação criadora, motivo pelo qual o especialista garante ter “insistido muito nesta ideia de que nunca foi tão importante nós ouvirmos aquilo que os filósofos têm a dizer como hoje”. Afinal, a filosofia assume um papel de salvaguarda e reflexão vital, “sobretudo neste mundo em que a nossa relação com as máquinas é cada vez mais estreita.
Da Ciência Política à Bioética
O caminho de Jorge Mateus até à vanguarda da ética tecnológica iniciou-se noutra área do saber. Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade da Beira Interior, foi o fascínio precoce pelas questões fundamentais da humanidade que o empurrou para as humanidades, levando-o a realizar o seu Mestrado em Filosofia Política e o Doutoramento em Filosofia na Universidade do Minho, já com o foco cimentado nas implicações morais das novas ferramentas digitais.
Hoje, como docente assistente convidado e investigador integrado no CEPS, o seu principal objetivo em sala de aula é manter vivo o pensamento crítico face ao que consideramos garantido. O conselho para a nova geração de estudantes de filosofia ou engenharia que se debatem com o futuro é muito claro: “Sejam curiosos e ousados”, mergulhando na longa história do pensamento humano para encontrar os alicerces capazes de sustentar o nosso amanhã.
A entrevista de Jorge Mateus ao UMinho I&D está disponível na íntegra em podcast.
