José Palmeira. É preciso perceber se o acordo de paz tem “pernas para andar”

Depois de mais de três meses do conflito, os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão deverão formalizar um acordo de paz esta sexta-feira. Nos últimos dias, os líderes norte-americanos têm vindo a celebrar este memorando como uma garantir de regresso à paz no Golfo, mas José Palmeira, professor do Departamento de Ciência Política da Escola de Economia, Gestão e Ciência Política da Universidade do Minho, tem dúvidas sobre se este entendimento tem “pernas para andar”.
Em declarações à RUM, fez uma avaliação do aparente consenso alcançado pelos Estados Unidos e pelo Irão para pôr fim às hostilidades.
O docente sublinha que o acordo tem ainda pontas soltas que podem “dinamitar” a paz no Golfo, nomeadamente com uma eventual continuidade das hostilidades entre Israel e o Hezbollah, aspeto que não deverá estar contemplado no memorando.
Perante sucessivas proclamações de vitória por parte do presidente norte-americano, José Palmeira rejeita que os EUA ficarão em melhor situação face ao período pré-guerra.
Na atura desenvolveram-se negociações entre norte-americanos e iranianos para fiscalizar o uso de armas atómicas por parte do país do Golfo, na altura com Barak Obama na Casa Branca. Donald Trump colocou um ponto final neste entendimento e, desde então, o Irão enriqueceu urânio para valores próximos dos necessários para construir armas nucleares.
Depois de todos estes desenvolvimentos, e com o aparente fim do conflito, a verdade é que pouco mudou. Mais que isso, o docente enumera várias razões que podem, antes, fazer sorrir os responsáveis iranianos.
Destaca o facto de o regime iraniano não ter caído, de os mísseis balísticos não serem abordados no memorando e, ainda, da ajuda militar da Rússia, da China e da Coreia do Norte.

Uma vitória dos EUA?
Por muito que Donald Trump defenda o sucesso da missão dos EUA no Irão, José Palmeira discorda.
O presidente norte-americano tem-se sustentado na reabertura do Estreito de Ormuz (que deverá voltar à normal circulação a partir de sexta-feira), que apenas foi encerrado na sequência dos ataques norte-americanos. Um paradoxo assinalado pelo doutorado em Ciência Política, que alerta ainda que a situação para os Estados Unidos pode piorar.
“A situação hoje está muito mais deteriorada, na medida em que se forem aplicadas uma espécie de ‘portagem’ aos navios que circulam no Estreito de Ormuz. Essa ‘portagem’ não existia antes.”
José Palmeira, professor do Departamento de Ciência Política da EEG
José Palmeira alerta, ainda, a relação entre os EUA e Israel, que agora está mais dividida.
Os norte-americanos “estão em contenção”, enquanto Israel acredita que se sente “menos seguro”, à semelhança do próprio Médio Oriente, que “poderá deixar de ver a presença dos Estados Unidos como uma garantia de segurança”.
