Bruno dos Reis quer aproximar estudantes de Teatro da UMinho da vida cultural de Guimarães

Há cerca de um ano à frente do Teatro Oficina, Bruno dos Reis diz ter encontrado em Guimarães uma cidade com uma dinâmica cultural “surpreendente”, marcada por uma forte atividade artística, mas também por desafios relacionados com a consolidação do setor teatral local e a aproximação dos jovens à vida cultural da cidade.
Esta terça-feira em entrevista ao programa Campus Verbal, da RUM, o diretor artístico descreve o primeiro ano na cidade berço entre uma “azáfama muito grande”, mas também “super enriquecedor”, sobretudo pela relação construída com artistas, agentes culturais e públicos.
“A maior surpresa para mim foi o ritmo que a cidade tem”, confidencia, salientando que “todas as semanas há imensas propostas de diversas naturezas e criadas por diversos coletivos. O ritmo da oferta é muitíssimo alto.”
Bruno dos Reis admite que a intensidade da programação cultural vimaranense pode até tornar-se “difícil de acompanhar”, mas considera que essa vitalidade é reveladora da importância que a cultura conquistou na cidade desde a Capital Europeia da Cultura, em 2012.
O responsável identifica ainda a quantidade de equipamentos culturais existentes no concelho e a presença de criadores espalhados por diferentes áreas artísticas, incluindo interpretação, criação técnica e produção. Apesar disso, entende que falta consolidar estruturas locais capazes de fixar artistas e criar maior presença nacional.
“Há poucos criadores que estão a circular de forma efetiva e permanente no território nacional enquanto estruturas da cidade de Guimarães”, exemplifica.
“Temos dados que dizem que há um crescimento de quatro vezes na frequência dos alunos da UMinho nas atividades do Teatro Oficina”

Na área do teatro, Bruno dos Reis considera que existe um potencial ainda por concretizar, sobretudo tendo em conta a existência da Licenciatura em Teatro da Universidade do Minho há mais de uma década.
“Para a quantidade de gente que procura criar e para a tradição histórica que Guimarães tem nessa área, parece-me que há ainda um salto que devemos coletivamente dar”, sustenta.
Segundo o diretor artístico, muitos estudantes chegam a Guimarães para frequentar o curso de teatro e acabam por permanecer na cidade, mantendo uma relação próxima com o meio cultural local.
“Existe muita gente que veio estudar teatro para Guimarães, tornou a cidade sua e ainda habita o território”, afirma.
Apesar disso, identifica que existia uma distância significativa entre os estudantes e a programação cultural da cidade, realidade que o Teatro Oficina tem procurado alterar. “Existia alguma falta de envolvimento dos alunos do curso de teatro na atividade cultural de Guimarães”, reconhece.
De acordo com Bruno dos Reis, o trabalho desenvolvido ao longo do último ano permitiu aumentar significativamente a presença dos estudantes nas atividades promovidas pela estrutura.
“Temos dados que dizem que há um crescimento de quatro vezes na frequência dos alunos da Universidade do Minho nas atividades do Teatro Oficina.”
O diretor artístico acredita que uma maior fixação de artistas e o fortalecimento de companhias residentes podem beneficiar simultaneamente a criação cultural e o desenvolvimento da cidade. E acresenta: “Companhias residentes no território são fundos garantidos para o investimento na área da cultura”.
Para Bruno dos Reis, o futuro cultural de Guimarães depende também da capacidade de aproximar diferentes gerações de criadores e públicos.
O responsável deixou também uma mensagem para os jovens que querem trabalhar no mundo artístico, valorizando sobretudo a persistência e a capacidade de escuta. “Se há um jovem que quer trabalhar num mundo artístico e conseguiu ouvir esta conversa até ao fim, então tem muita resiliência e manifesta um extremoso interesse pela área”, atira.
O teatro perante uma sociedade acelerada traz novos desafios aos agentes culturais
Nesta grande entrevista Bruno dos Reis reflete sobre a transformação das práticas culturais nas últimas décadas. O diretor artístico considera que a forma como o público consome ou “usufrui” cultura mudou profundamente devido às redes sociais, ao ritmo acelerado da vida quotidiana e à lógica permanente de otimização do tempo.
“O nosso ritmo é completamente diferente. O nosso dia a dia é completamente diferente”, afirma, dando exemplos até até de momentos tradicionalmente associados à pausa ou à contemplação, que desapareceram, nomeadamente numa simples viagem de automóvel, que considera terem deixado de ser espaços de silêncio ou reflexão.
“Até o carro foi colonizado pelo capitalismo”, diz, defendendo que existe hoje “uma tal otimização do nosso tempo” que mesmo os momentos de descanso são ocupados por estímulos como troca de mensagens, podcasts ou conteúdos digitais.
AS Novas gerações “mais desengajadas” da prática cultural
Questionado sobre as redes sociais e os jovens, o diretor artístico identifica também uma mudança profunda na relação dos jovens com a cultura e com a participação coletiva. “Os jovens estão de forma muito mais desengajada da prática cultural”, assinala, acrescentando que esta realidade ultrapassa o domínio artístico e reflete-se numa diminuição geral das formas de convivência e participação social.
“Saem menos à noite, frequentam-se menos os outros”, analisa, apelando em simultâneo para uma certa reflexão de comportamentos.
Ainda assim, o também encenador acredita que o contacto entre gerações pode renovar o teatro contemporâneo e criar novas formas de participação, ate porque “esta hipotética renovação do fazer teatral exige esse contacto com as gerações mais jovens.”

E qual O papel do diretor artístico agora e no futuro?
Perante esta transformação social, Bruno dos Reis entende que dirigir um projeto cultural implica hoje lidar com novos desafios de comunicação e mediação. “Não há projetos culturais que não sejam projetos de comunicação”, começa por argumentar.
O responsável admite que comunicar cultura para públicos mais jovens obriga a decisões complexas e sem respostas definitivas. “Se comunicares um espetáculo de uma forma que consiga chegar às gerações mais jovens, é possível que o estejas a desvalorizar em alguns domínios,” refere.
Para Bruno dos Reis, o principal desafio continua a ser criar espaços de encontro num mundo marcado pelo excesso de ruído e pela falta de tempo para escutar.
“O teatro será o último reduto da presença”
Nesta entrevista de apelo a uma reflexão descontraída sobre o mundo em que vivemos, o quen nos move e o papel do teatro e da cultura no seu todo para as novas gerações, Bruno dos Reis revela a convicção de que o teatro pode ganhar ainda mais importância num mundo cada vez mais mediado pela tecnologia.
“O teatro será o último reduto da presença,” já que o encontro físico entre pessoas continua a ser a essência transformadora do teatro.
“Para o teatro acontecer, eu tenho que me encontrar contigo. Num mundo cada vez mais artificial, a potência de transformação do teatro permanece intacta.”
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