Estudo alerta que crianças de contextos mais desfavorecidos sentem maior discriminação

A investigadora Leonor Pereira da Costa alerta que o "estatuto socioeconómico tem de deixar de ser tabu nas escolas".

Uma em cada dez crianças sente-se discriminada devido ao seu estatuto socioeconómico. A informação é avançada por um estudo do Observatório Social da Fundação ‘La Caixa’, que se baseou num inquérito realizado a mais de 2.500 crianças e adolescentes, com idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos, de 40 escolas de todo o país.

O artigo Implicações da perceção de desigualdades socioeconómicas no bem-estar das crianças e nas suas aspirações‘ é da autoria de Leonor Pereira da Costa, da Universidade Lusófona e do HEI Lab, em conjunto com Joana Cabral (Independent Researcher), Ricardo Borges Rodrigues (ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, CIS), Sílvia Luís (Universidade de Lisboa, Centro de Investigação em Ciência Psicológica) e Vítor Hugo Silva (Universidade Lusófona, HEI Lab; ISCTE e DINÂMIA’CET).

As conclusões demonstram que os alunos que se percecionam com contexto mais desfavorecido reportam maior discriminação e expectativas mais negativas sobre o seu futuro.

O número de crianças que reportam estes casos pode parecer baixo, mas Leonor Pereira da Costa alerta que “estas crianças são mais vulneráveis e isto afeta particularmente o seu bem-estar.”

Leonor Pereira da Costa e a principal conclusão do estudo

O estudo procurou, ainda, perceber se um pior contexto socioeconómico influencia o percurso profissional. Mais uma vez, a discriminação tem um impacto significativo no futuro dos jovens.

“As crianças que sentem que pertencem a um nível socioeconómico mais baixo são aquelas que se sentem mais discriminadas. Isso conduz a que tenham expetativas mais baixas face ao seu futuro académico e profissional.”

Leonor Pereira da Costa, em declarações à RUM
O impacto da discriminação na relação entre o contexto socioeconómico e o percurso dos jovens

O contexto nacional

Em Portugal, 20,7% das crianças e jovens encontram-se em risco de pobreza ou exclusão social, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 2024.

No mesmo período, a desigualdade de rendimentos, medida pelo coeficiente de Gini, atingiu 30,9%, valor acima da média da União Europeia.

São dados que se manifestam entre os mais novos, sendo que aqueles que surgem de um contexto mais desfavorecido “são muitas vezes têm uma imagem negativa”.

Leonor Pereira da Costa reconhece que alguns indicadores, nomeadamente a roupa, manifestam as diferenças de contexto, mas rejeita, neste caso, o recurso aos uniformes nas escolas. “Se não for a roupa, as crianças (e os adultos) arranjam outros indicadores para perceber quem tem mais ou menos posses“, defende.

A investigadora revela que este trabalho surge, precisamente, da observação de casos de discriminação nas escolas, tanto “naquilo que vamos assistindo à nossa volta, como das memórias que temos enquanto crianças”.

O contexto que impulsionou a elaboração deste estudo

Solução? falar sobre o assunto

A reposta, para a investigadora e docente da Universidade Lusófona, deve passar pelo trabalho realizado dentro do próprio contexto escolar.

O estatuto socioeconómico dos alunos é, muitas vezes, um assunto tabu, mas a docente sublinha a necessidade de discutir o tema abertamente, de modo a mitigar estereótipos negativos associados aos mais jovens.  

“Prefere-se esconder que estas desigualdades existem, não falar sobre elas, para as crianças não se sentirem pior, mas há formas de abordar o assunto. Estas desigualdades estruturais devem ser faladas abertamente.”

Os diferentes contextos socioeconómicos constituem um tabu no ambiente escolar, para a investigadora
Como mitigar o problema?

Segundo os investigadores, os resultados sugerem que as desigualdades socioeconómicas podem influenciar não apenas as oportunidades reais das crianças, mas também a forma como estas percecionam o seu próprio potencial e as possibilidades de mobilidade social.

*editar por Marcelo Hermsdorf

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David Alves Braga
David Alves Braga

Jornalista

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