Ensino Superior rende quase 14 euros por cada euro investido, mas famílias suportam 30% dos custos

Nos últimos 25 anos, Portugal deu um salto educativo histórico: a percentagem de jovens adultos com ensino superior quadruplicou, passando de apenas 11% no final da década de 1990 para 43% em 2024. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), elaborado por investigadores da Nova SBE e divulgado esta quinta-feira vem agora confirmar que tirar um curso superior continua a ser um “elevado” investimento financeiro, mas esconde profundas desigualdades de acesso ditadas pelo contexto familiar e assimetrias salariais dependendo da área de estudo.
O policy paper “Ensino superior e emprego jovem em Portugal” revela que a relação custo-benefício em Portugal é muito forte: por cada euro investido no Ensino Superior, o retorno salarial é de 13,7 euros ao longo da carreira, um valor 68% acima da média da União Europeia.
A rápida entrada no mercado de trabalho justifica estes números: um a dois anos após a conclusão do curso, 75% dos licenciados e 88% dos mestres já têm emprego. Aliás, Portugal regista uma das mais baixas taxas de inatividade de jovens diplomados na Europa (5,7%, bem abaixo da média da OCDE de 9,1%), mostrando que quem tem curso superior raramente fica desligado da economia. Os reflexos nos rendimentos são claros: face a quem só tem o secundário, um licenciado ganha mais 28% e um mestre mais 49%.
Nem todos os diplomas valem o mesmo
Apesar dos fortes ganhos médios, o estudo da FFMS alerta para as enormes disparidades salariais entre cursos. As áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (as chamadas STEM), a par da Saúde e da Gestão, oferecem as remunerações mais atrativas.
No topo da tabela salarial encontram-se as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Em contraste, áreas como a Educação e os Serviços Sociais encontram-se no fundo da escala de remunerações. O desnível é tão expressivo que um jovem com mestrado na área da Educação ou Serviços Sociais chega a ganhar apenas metade do salário por hora de um recém-licenciado em TIC.
A desigualdade começa em casa
Outro dado preocupante prende-se com a forma como o contexto económico das famílias condiciona os percursos educativos muito antes de se chegar à Universidade. O estudo revela que 47% dos alunos cujos pais não concluíram o ensino superior acabam por ser encaminhados para o ensino profissional. Em contraste, apenas 20% dos estudantes com pais diplomados escolhe esta via.
Isto tem um impacto direto no acesso às universidades e politécnicos: enquanto 76% dos alunos dos cursos científico-humanísticos prosseguem para o Ensino Superior, apenas 22% dos alunos do ensino profissional dão esse salto. Os dados sugerem que o atual sistema pode estar a “reforçar as desigualdades sociais existentes, em vez de as mitigar”.
O pesado esforço das famílias portuguesas
Apesar de, em valores absolutos, os custos do ensino superior português não serem os mais altos da Europa, eles pesam imenso no bolso das famílias. O relatório demonstra que as famílias portuguesas suportam cerca de 30% dos custos da frequência do ensino superior (muito acima da média europeia de 13%), um encargo que se torna muito pesado quando comparado com o baixo nível de rendimentos do país.
Para que estas barreiras financeiras não afastem alunos com mérito, os investigadores deixam recomendações claras: é preciso reforçar os apoios e as bolsas de estudo para os alunos mais vulneráveis. Caso contrário, os custos iniciais elevados continuarão a ser um obstáculo intransponível.
Para o futuro, a equipa da Nova SBE apela ainda a uma melhor articulação dos dados do Estado: é imperativo cruzar os registos da educação com os do emprego, para que os futuros universitários tenham acesso a informação clara e transparente sobre salários e empregabilidade de cada curso, permitindo escolhas mais informadas. Além disso, defende-se uma forte orientação profissional desde os primeiros anos do ensino secundário, combatendo as limitações impostas pelos diferentes contextos familiares.
