O Enterro da Gata ainda era numa tenda quando a TUM deu o primeiro concerto

A história cultural da Universidade do Minho também se escreve através da música, das tunas, das viagens e da boémia académica. Em entrevista à RUM, o pró-reitor da Universidade do Minho, Raul Fangueiro, recuou às décadas de 80 e 90 para recordar o nascimento de alguns dos mais emblemáticos grupos culturais da academia minhota.
Fundador da Tuna Universitária do Minho, da ARCUM – Associação Recreativa e Cultural Universitária do Minho e antigo membro do Grupo de Música Popular e do Grupo Folclórico, Raul Fangueiro descreve esse período como uma fase de “grande transformação” da universidade e do próprio país.
Os primeiros passos da cultura académica minhota
Quando entrou na Universidade do Minho, em 1987, Raul Fangueiro encontrou uma instituição ainda jovem, em crescimento e marcada por profundas mudanças sociais e culturais. “Tudo estava a ser construído naquele momento”, começa por assinalar numa entrevista gravada em plena semana de Enterro da Gata.
A atividade cultural estudantil dava então os primeiros passos. O Grupo de Música Popular, criado em 1984, acabaria por funcionar como ponto de partida para muitos dos projetos que viriam a marcar a academia minhota nas décadas seguintes.
Raul Fangueiro juntou-se ao grupo pouco depois de entrar na universidade, numa altura em que encontrar estudantes que soubessem tocar instrumentos musicais ainda era raro. “Todos os alunos que sabiam tocar alguma coisa eram aliciados a participar”, contou, admitindo que era precisamente um desses exemplos apesar de não ter qualquer formação musical.
Daí nasceram novas estruturas culturais, entre elas a Tuna Universitária do Minho (TUM), fundada em 1990, fortemente inspirada nas tunas espanholas e na proximidade a Santiago de Compostela. Ainda que Coimbra fosse desde sempre a eterna cidade dos estudantes foi à vizinha Espanha que os alunos da UMinho foram buscar inspiração.
A irreverência da Tuna e a estreia no Enterro da Gata
A primeira atuação da Tuna Universitária do Minho continua viva na memória de Raul Fangueiro. A antestreia aconteceu em maio de 1990, no antigo pub John Lennon, na cidade de Braga. “Foi um dia de grande emoção”, recorda.
A irreverência fazia parte da identidade da Tuna desde o início. Fangueiro lembra que os estudantes entraram em palco com óculos iluminados, num espetáculo pensado para surpreender o público académico.
Poucos dias depois chegou a estreia oficial da Tuna Universitária do Minho no Enterro da Gata, numa época em que as festas académicas decorriam numa tenda de circo conhecida pelos estudantes como “a barraca”, nas imediações do campus de Gualtar que estava em fase de construção.
A universidade era então muito mais pequena, com apenas alguns milhares de alunos, o que reforçava a proximidade entre toda a comunidade académica.
Viagens, boémia e espírito académico
Ser tuno significa muito mais do que atuar em palco. As deslocações a festivais académicos em Portugal e Espanha ajudaram a criar laços entre academias e proporcionaram algumas das experiências mais marcantes da vida universitária do atual pró-reitor.
Uma das aventuras mais memoráveis aconteceu em 1990, quando elementos ligados à ARCUM realizaram uma digressão de autocarro até à então União Soviética. Durante várias semanas, 53 estudantes atravessaram a Europa até São Petersburgo, numa viagem organizada “sem telemóveis, GPS ou moeda única europeia”, recorda.
“Tínhamos o percurso marcado num mapa em papel”, recorda, acrescentando que as etapas eram definidas dia após-dia tanto na ida como no regresso.
A experiência combinava dimensão cultural, académica e humana, refletindo uma visão da vida universitária que ultrapassava largamente as salas de aula. Segundo o responsável da instituição de ensino superior minhoto estas primeiras experiências contaram com o contributo da própria reitoria e dos Serviços de Ação Social.
O crescimento dos grupos culturais da umINHO

A criação da Tuna Universitária do Minho acabou por abrir caminho ao aparecimento de outros projetos culturais, nomeadamente a Azeituna e a Tuna de Engenharia, entre muitos outros, acompanhando o crescimento da Universidade do Minho e das suas tradições estudantis.
A fundação da ARCUM procurou precisamente unir vários destes projetos sob uma estrutura comum, reforçando a ligação entre música, cultura e vivência académica.
Segundo Raul Fangueiro, a própria transmissão informal de conhecimentos musicais ajudou a consolidar esses grupos ao longo dos anos. Os estudantes mais experientes – como o próprio – ensinavam os mais novos, garantindo continuidade geracional e identidade cultural.
“As competências adquiridas são tão importantes como as aulas”
Hoje como pró-reitor da Universidade do Minho, Raul Fangueiro considera que a participação em grupos culturais continua a ser uma das experiências mais enriquecedoras da vida académica.
“As competências adquiridas nestas atividades são tão importantes como as competências técnicas das aulas”, argumenta sem rodeios.
Aqui, o docente destaca capacidades como trabalho em equipa, organização, criatividade, liderança e empreendedorismo.
Mais do que nostalgia, as memórias da Tuna, do Enterro da Gata e da vida boémia académica representam para Raul Fangueiro uma parte essencial da formação pessoal dos estudantes.
“Acho que essa experiência teve uma influência muito grande naquilo que eu sou atualmente, quer a nível profissional quer a nível pessoal”, remata.
