Palácio dos Biscainhos renasce. A nova vida da Cozinha Senhorial e dos Jardins

A Cozinha Senhorial e os Jardins Históricos do Palácio dos Biscainhos, em Braga, reabriram oficialmente esta terça-feira com uma face renovada. Mais do que uma obra de restauro, esta intervenção marca o início de uma nova fase museológica onde o património se cruza com a interatividade e a sustentabilidade ambiental.
Uma viagem imersiva à gastronomia dos séculos XVII e XVIII
A cozinha é um dos elementos mais marcantes do edifício, funcionando como uma porta de entrada para o conhecimento da vida quotidiana de outrora. O espaço é dominado por uma monumental chaminé coberta de telha vã, com um “Engenho” e espetos de ferro onde se assavam animais inteiros. A exposição detalha uma dieta farta da nobreza, rica em caça e carnes, mas onde o peixe dominava durante o jejum quaresmal. Sabores agridoces e o uso de especiarias como a canela eram rotineiros, contrastando com o arroz e a batata, que só ganharam expressão em séculos posteriores.
Nas vitrines, a baixela de estanho e a faiança de centros oleiros de Lisboa e Coimbra recordam o ritual de distinção social da lavagem das mãos à mesa, realizado com gomis, lavandas e linho fino. O percurso inclui ainda o raro exemplar de 1693 da “Arte de Cozinha” de Domingos Rodrigues, o primeiro manual de gastronomia impresso em Portugal.
Para Fátima Pereira, diretora do Museu dos Biscainhos, a reabertura deste espaço ultrapassa a mera preservação estética do edifício. A responsável sublinha que a cozinha assume um papel central na missão educativa da instituição, funcionando como um veículo direto e imersivo para partilhar com os visitantes a realidade social daquela época.
“É um salto significativo no conjunto patrimonial do Palácio dos Biscainhos pelo conhecimento que queremos passar à comunidade sobre como se vivia e comia à época.”
Fátima Pereira, diretora do Museu dos Biscainhos
Executar sonhos: O PRR e as novas frentes de intervenção

A requalificação foi possível graças ao financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência, que permitiu concretizar o que a direção descreve como “sonhos” para o Palácio. Além da cozinha, estão a decorrer intervenções no teto do Salão Nobre, onde novas descobertas artísticas estão a ser reveladas sob camadas de tempo. O projeto abrange ainda o reforço da iluminação para permitir eventos pós-anoitecer nos jardins e a requalificação do Pombal, que se tornará um centro de biodiversidade e educação ambiental para as escolas.
A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, sublinha que este investimento é vital para preservar o passado, garantindo uma ligação íntima com o território e atraindo novos públicos através de tecnologias instaladas em espaços como as cocheiras.
“Temos de aproveitar o financiamento para preservar o património e oferecer um mar de oportunidades ao serviço da comunidade, criando novos públicos e estimulando o gosto pela cultura o mais precocemente possível.”
Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura
Sentir o Palácio: Uma museografia para o século XXI

A nova abordagem museográfica, desenhada pela Museus e Monumentos de Portugal (MMP), optou por espaços mais amplos e abertos, evitando o excesso de objetos para que o visitante sinta a arquitetura e a vivência real do palácio. O maior desafio, segundo Alexandre Nobre Pais, presidente do Conselho de Administração da MMP, foi conciliar o respeito pelas estruturas antigas com o conforto moderno, exemplificado pela complexa instalação de um elevador que garante a acessibilidade.
“O objetivo é que as pessoas sintam o palácio, sintam o que é a vivência do palácio, mas ao mesmo tempo vão observando peça a peça, sem que a arquitetura se perca.”
Alexandre Nobre Pais, presidente da Museus e Monumentos de Portugal
Do Minho para o Mundo: Um Palácio sem fronteiras
Com olhos postos no futuro, o museu procura projetar a riqueza de Braga a nível internacional, explorando sinergias com outros países, como é o caso do Japão. Ao abrir mais espaços com narrativa renovadas, o Palácio reafirma-se como um embaixador da cultura portuguesa, onde a arte e o engenho do passado continuam a girar para as gerações futuras.
