Saúde Mental na UMinho. Satisfação académica atua como “escudo”, mas falta de apoio agrava crises

A coordenadora do projeto Prometeu, Eugénia Ribeiro, detalha no UMinho I&D como o contexto institucional afeta o bem-estar da academia e alerta para a escassez de recursos psicológicos para dar resposta a 20 mil estudantes.
"Temos níveis de sintomatologia depressiva e de burnout elevados, mas são os que responderam": Eugénia Ribeiro analisa o sofrimento psicológico dos alunos à luz das limitações e do viés da amostra analisada.

O projeto Prometeu, um estudo multidisciplinar focado na saúde mental e bem-estar de toda a comunidade da Universidade do Minho, estudantes, docentes, investigadores e pessoal técnico, administrativo e de gestão (TAG’s), conclui que a vulnerabilidade individual é fortemente moldada pelo contexto.

Em entrevista ao programa UMinho I&D, a coordenadora da investigação, Eugénia Ribeiro, explicou como a instituição pode atenuar os riscos de ansiedade e burnout, deixando o alerta para a urgência de reforçar os serviços de apoio psicológico.


O peso do contexto e o efeito apaziguador

Apesar de uma taxa de resposta reduzida ter limitado a extrapolação total dos dados, os modelos explicativos do estudo trouxeram evidências claras sobre o papel do ambiente académico. Segundo Eugénia Ribeiro, variáveis de personalidade como o neuroticismo, que predispõem para emoções negativas, podem ser moderadas pelo grau de satisfação académica.

Apresentação do Projeto Prometeu em reunião do Conselho Geral

A investigadora explica que quando os membros da comunidade estão satisfeitos com o seu curso, com as relações interpessoais ou com as políticas organizacionais, a probabilidade de desenvolverem níveis severos de depressão ou ansiedade cai drasticamente, funcionando a instituição como um verdadeiro fator de proteção.

“Quando nós temos uma vulnerabilidade pessoal que predispõe para a sintomatologia severa ou elevada, e estas pessoas, apesar de tudo, têm satisfação académica, a probabilidade de desenvolverem estes níveis é menor. Isto significa que a satisfação académica pode ser um fator protetor.”

A investigadora explica de que forma a satisfação académica atua como um fator protetor, atenuando as vulnerabilidades individuais dos estudantes

O desafio da inclusão: “Não falamos a mesma língua”

O estudo qualitativo, apoiado em grupos focais, expôs também fragilidades na integração de subgrupos específicos. No caso dos estudantes dos PALOP, a língua e as barreiras culturais surgem como focos de isolamento.

“Diziam: todos falamos português, mas não falamos a mesma língua porque não nos entendemos”, relata a docente, sublinhando que pequenos desencontros culturais, como não receber resposta a um “bom dia”, podem gerar sentimentos de desadequação e prejudicar gravemente a adaptação.

Eugénia Ribeiro defende que a verdadeira “cultura de inclusão” exige que os diretores de curso e os docentes desenvolvam “competência cultural” no contexto do ensino-aprendizagem, indo além da simples identificação do país de origem e promovendo o genuíno sentimento de pertença e de trabalho em rede.

A coordenadora do projeto Prometeu explica como as pequenas diferenças culturais e de comunicação podem ditar o isolamento e o sentimento de desadequação

A escassez de recursos e as respostas “em crise”

Para intervir no ecossistema da universidade de forma sistémica, como sugere o modelo adotado pela equipa (baseado no modelo ecológico de Bronfenbrenner), não basta olhar apenas para o indivíduo. Contudo, quando os problemas psicológicos se instalam, a resposta clínica esbarra num obstáculo crítico: a falta de efetivos. A docente recorda que um rácio de um ou dois psicólogos para 20 mil estudantes é insustentável.

“Mais profissionais certamente que serão importantes. Um para 20 mil é muito pouco. É natural que as listas de espera sejam grandes. As respostas, às vezes, acabam por ser em crise.”

Eugénia Ribeiro alerta para a falta de psicólogos na academia, o que gera longas listas de espera e força um atendimento maioritariamente focado em situações de crise

Observatório institucional em perspetiva

Recomendações do estudo apresentadas em Conselho Geral

Para garantir que o diagnóstico do projeto Prometeu não se esgota num relatório, a equipa propôs a criação de um Observatório para a Saúde Mental e Bem-Estar. Eugénia Ribeiro defende que este organismo tem de estar obrigatoriamente inscrito “nas políticas e nas estratégias da Universidade”, atuando em rede com os vários serviços e com o atual programa financiado pela DGES (stepped care).

O objetivo desta estrutura, explica a investigadora, é dar “continuidade ao projeto” e tornar a monitorização “longitudinal”, garantindo que as ações de promoção do bem-estar estão sempre articuladas “com diferentes estruturas da universidade”.

A proposta de criação de um Observatório institucional para monitorizar permanentemente a evolução da saúde mental na Universidade do Minho

A devolução final dos dados à academia minhota, acompanhada de propostas operacionais focadas nas diferentes necessidades de estudantes, docentes e funcionários, acontecerá no próximo mês de outubro, assinalando o Dia Mundial da Saúde Mental.

O episódio do UMinho I&D com Eugénia Ribeiro já está disponível em podcast.

Partilhe esta notícia
Ariana Azevedo
Ariana Azevedo

Jornalista na RUM

Deixa-nos uma mensagem

Deixa-nos uma mensagem
Prova que és humano e escreve RUM no campo acima para enviar.
Carolina Damas
NO AR Carolina Damas A seguir: Português Suave às 19:00
00:00 / 00:00
aaum aaumtv