Pedro Morgado. “Quem vende apostas online está um passo à frente das autoridades”

O ICAD vai avançar com a criação de um centro especializado no tratamento do jogo patológico, algo "fundamental" para o professor e investigador da UMinho.

O ICADInstituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências vai lançar o primeiro centro especializado no tratamento do jogo patológico. Vai nascer em Lisboa, até ao verão, com o objetivo de intervir nos casos de dependência no jogo a dinheiro e nos videojogos. Pedro Morgado, professor e investigador da Universidade do Minho (UMinho) especializado em comportamentos aditivos, caracteriza este espaço como uma necessidade.

Inicialmente idealizado para intervir nos vícios em substâncias, o ICAD é a estrutura do Sistema Nacional de Saúde (SNS) responsável por tratar todo o tipo de dependências. Hoje, o paradigma é diferente. O consumo de heroína, por exemplo, baixou nos últimos anos. Em sentido contrário, cresceram as patologias associadas ao jogo.

Por esse motivo, o tratamento especializado nestas doenças torna-se algo “absolutamente fundamental”, tal como defende Pedro Morgado, especialista em comportamentos aditivos e membro da direção Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, em entrevista à RUM.

Para o investigador, este novo centro “responde àquilo que é a mudança epidemiológica do padrão de pessoas que têm perturbações de dependência”. Deste modo, afirma, será possível “identificar, em primeiro lugar, as pessoas que estão a sofrer com jogo patológico e, em segundo lugar, intervir para tratar esta doença. “

Pedro Morgado sobre a implementação do novo centro do ICAD, que vai tratar o jogo patológico

As dependências em substâncias e no jogo possuem características semelhantes, nomeadamente a influência na tomada de decisão. Ainda assim, segundo o antigo vice-presidente da Escola de Medicina da UMinho, há diferenças nos perfis associados a estas doenças.

Pedro Morgado (Fotografia: UMinho)

Pedro Morgado recorda a epidemia do uso de substâncias, sobretudo nas décadas de 80 e 90, por se tratarem de situações que provocavam uma “deterioração do funcionamento corporal e social das pessoas”. Quanto aos jogadores, “estão melhor inseridos na sociedade” e muitas vezes quem os rodeia “não se apercebe daquilo que está a acontecer”.

“A outra diferença é que nós temos aqui uma predominância ligeiramente maior de pessoas de estratos sociais mais elevados e de pessoas com maiores rendimentos económicos daquilo que nós tínhamos quando falávamos das grandes crises relacionadas com as substâncias no século passado.”

Pedro Morgado e as características da pessoa com dependência no jogo

Nos últimos dois anos, segundo números avançados pelo ICAD, o número de pessoas que estão a ser acompanhadas por perturbação de jogo disparou 118%, ultrapassando, no ano passado, os 780 casos.

O que justifica esta subida?

Trata-se de um crescimento que se deve, acima de tudo, à facilidade de acesso ao jogo online e à quantidade crescente de publicidade para o jogo a dinheiro.

“Aqueles que vendem este tipo de apostas, aqueles que lucram com o jogo, estão sempre um passo à frente das autoridades.

Pedro Morgado, membro da direção Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental

Para o investigador, há “uma enorme desregulação da publicidade”, problema que se agrava pelas “muitas formas de contornar aquilo que seriam os benefícios dessa regulação”.

A quantidade é, também, motivo de alarme. Pedro Morgado defende que existe “uma ubiquidade da publicidade ao jogo em todas as atividades da nossa vida”, principalmente no desporto e online.

Para o antigo vice-presidente da Escola de Medicina, o problema estende-se além da publicidade legal. Chama a atenção para os influenciadores, que promovem casas de aposta ilegais e desreguladas, “que lucram e fazem publicidade direta e indireta a estas plataformas”.

A solução

A resposta, para Pedro Morgado, deverá centrar-se em numa aposta legislativa, para limitar e regular a publicidade, tanto “daquilo que é físico, mas sobretudo daquilo que são os mecanismos online”.

Em Portugal, “temos de nos alinhar com os bons exemplos que já acontecem na Europa”, defende o especialista em comportamentos aditivos.

Vai mais longe, sublinhando que a União Europeia deve assumir um compromisso generalizado para colmatar o crescimento de pessoas com dependência no jogo.

“A ideia tradicional de que os Estados controlavam tudo fica completamente diluída pelas possibilidades que existem no mundo digital.”

A Linha 1414 está disponível para apoiar a população com comportamentos aditivos.

*editado por Marcelo Hermsdorf

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David Braga
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Jornalista

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Carolina Damas
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