José Palmeira antevê obstáculos à retirada dos EUA da guerra contra um Irão que “ainda tem trunfos”

O presidente dos Estados Unidos disse na madrugada desta quinta-feira que os objetivos estratégicos da ofensiva israelita-americana contra o Irão estão “perto de completos” e que vai devolver o país persa à “idade da pedra”.
Apesar de não ser, como especulado, uma declaração de vitória ou de paz, Donald Trump fala novamente de um possível fim da ofensiva do país no Médio Oriente.
No começo da semana, tinha anunciado que o contingente militar norte-americano destacado para a região, abandonaria o local “muito em breve”. Saída esta que poderia ocorrer “dentro de duas a três semanas”, conforme detalhou, na terça-feira, na Casa Branca.
A posição de Donald Trump é vista com cautela pelo professor e investigador em Ciência Política da Universidade do Minho (UMinho). José Palmeira acredita que há obstáculos que vão muito além da vontade de Washington. À RUM, o especialista recorda que a própria origem do conflito levanta questões sobre a autonomia da decisão americana.
O politólogo sugere que a guerra pode ter sido precipitada por influências externas, nomeadamente de Israel, afirmando que “os interesses de (Benjamin) Netanyahu ter-se-ão sobreposto àquilo que foram os alertas que os militares norte-americanos fizeram ao presidente”.

Ressalta que a estratégia inicial se baseava na crença de que a eliminação de figuras de topo do regime provocaria a queda da estrutura. O professor acredita que o presidente israelita foi “otimista demais”, pois o Irão continua a revelar “capacidade também para responder do ponto de vista militar”.
A questão logística e económica é outro entrave crítico. José Palmeira não acredita numa retirada antes da libertação do Estreito de Ormuz, sublinhando que aceitar um acordo com o estreito encerrado seria “dizer que houve um fracasso total na intervenção militar”. O encerramento desta via não só mantém o regime vivo, como acrescenta uma “crise económica mundial provocada pelo aumento do preço do petróleo e do gás natural”.
Aliados regionais mantém “trunfo” para o Irão
Além da resiliência económica, o conflito pode ter tido o efeito perverso de acelerar as ambições nucleares de Teerão. Segundo o especialista da UMinho, o Irão tem agora todos os “incentivos para chegar à arma atómica, na medida em que lhe garante mais segurança”.
Apesar da queda do antigo líder supremo, o Ayatollah Ali Khamenei, o país mantém aliados regionais de peso, como o Hezbollah, o Hamas e os Hutis, que garantem ao país trunfos estratégicos, como a capacidade de “encerrar o tráfego marítimo no Mar Vermelho”, o que pode complicar a posição dos EUA, na ánalise do especialista.
Eleições de meio mandato podem levar Donald Trump a procurar “salvar a face” em Cuba
Com as eleições de novembro no horizonte, Donald Trump tenta evitar um desgaste maior para o Partido Republicano. O especialista antevê que o presidente tentará “salvar a face” perante os eleitores, possivelmente apresentando o derrube do regime cubano “seja por negociação ou força” como um “último trunfo” eleitoral antes de novembro.
