“Estacionar para cuidar não é para cobrar”. Profissionais e utentes exigem fim do parque pago no Hospital de Braga

Cerca de 80 pessoas concentraram-se esta sexta-feira de manhã junto à entrada principal do Hospital de Braga, numa greve que uniu profissionais de saúde e utentes. A paralisação, que se estende até à meia-noite, tem como alvo principal a cobrança de estacionamento na unidade de saúde, descrita pelos manifestantes como um encargo incomportável e injusto.
O peso financeiro de “estacionar para cuidar”
A principal reivindicação prende-se com os custos de acesso ao local de trabalho e com o modelo de negócio do parque. Os manifestantes denunciam que 25% dos lucros da exploração revertem a favor da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), um organismo do Ministério da Saúde. A exigência é clara: esse valor devia ser canalizado para garantir a gratuitidade ou reduzir as tarifas. Sem alternativas viáveis de transportes públicos, especialmente no período noturno, o uso de viatura própria é inevitável.
“Nós estamos a falar de médicos, de enfermeiros, de técnicos, de assistentes ou profissionais que asseguram um trabalho todos os dias neste hospital e que têm que pagar anualmente quase um salário mínimo, mais de 600 euros para aqui trabalhar. E estamos a falar num hospital que não tem alternativas de transportes públicos e que à noite, simplesmente, não existem. Ao mesmo tempo, é um parque também extremamente caro para os utentes e nós estamos aqui hoje para que este parque seja gratuito não só para todos os profissionais e que também para os utentes, porque é um parque de um hospital, não deve ser um parque que exista para fazer lucro.”
Joana Bordalo e Sá
A indignação agrava-se quando a situação é comparada com a de outras unidades de saúde do Minho. Paula Peixoto, médica de Gastrenterologia da unidade hospitalar e delegada sindical, destaca a disparidade de preços praticada a poucos quilómetros de distância.
“Em Guimarães têm dois parques gratuitos: o parque da feira e o parque do shopping. Mas, além disso, quem quiser colocar dentro do hospital só paga seis cêntimos à hora. Se fizermos rapidamente as contas, um profissional que trabalhe, suponhamos, 12 horas numa semana, cinco dias, se multiplicarmos por quatro, eles pagam um valor total de 14,50 euros. Em Barcelos, também têm um parque gratuito, o Parque da Feira, têm outras alternativas”
Paula Peixoto
O caos nos acessos e o impacto nos doentes
Para além da fatura no final do mês, a própria infraestrutura é apontada como um bloqueio diário. A partilha de uma única via de acesso entre utentes, ambulâncias e profissionais gera engarrafamentos sistemáticos logo nas primeiras horas da manhã. Fernanda Nogueira, médica de Cirurgia Geral, explica como a arquitetura rodoviária prejudica o atendimento aos doentes.
“Esta única via traz constrangimentos enormes todos os dias de manhã. As pessoas têm que se pôr a pé muito cedo e chegam constantemente tarde, não só os profissionais como os próprios doentes. Ainda a semana passada, por exemplo, na minha consulta de quinta-feira, os três primeiros doentes chegaram com mais de uma hora de atraso.”
Fernanda Nogueira
Impacto no bloco operatório e consultas
O reflexo do protesto no funcionamento do hospital tem gerado versões divergentes. Segundo Joana Bordalo e Sá, a adesão afetou fortemente as cirurgias agendadas, estando “apenas uma sala em 12 a funcionar” no bloco operatório durante a manhã.
No entanto, fonte oficial da Unidade Local de Saúde (ULS) de Braga contrapõe estes números, confirmando que, na realidade, quatro das 12 salas de operação se encontram ativas e a funcionar, confirmando, ainda assim, fortes constrangimentos nas consultas e o encerramento parcial de outros serviços não urgentes. A mesma fonte adianta que a taxa de adesão global à greve ronda os 33%.
Utentes juntam-se à luta
O protesto não se cingiu a quem trabalha naquela unidade de saúde. Os doentes e visitantes, igualmente afetados pelos preços do parque gerido por uma entidade privada, fizeram questão de marcar presença. José Lobato assumiu a voz da Comissão de Utentes de Saúde do Hospital de Braga para apresentar exigências concretas à tutela.
“Nós estamos a reivindicar que essa taxa seja reduzida em 50% para a generalidade dos utentes que participam neste hospital ou que frequentam o hospital. E pedimos a isenção para os doentes oncológicos, dificuldades de mobilidade, todos aqueles doentes que precisam de um tratamento mais afim, que não paguem taxas também.”
José Lobato
Sem respostas concretas por parte do Conselho de Administração da ULS de Braga ou do Ministério da Saúde até ao momento, os sindicatos alertam que as formas de luta poderão subir de tom caso o silêncio institucional se mantenha.
[notícia atualizada às 14h47 com a percentagem de adesão à greve]




