EUA/Israel vs Irão: o testemunho de duas minhotas que não tencionam abandonar a região… Pelo menos para já

Mesmo sob a ameaça dos ataques iranianos, que causaram pelo menos cinco mortos e vários feridos, o ambiente em diversos países do Golfo Pérsico permanece aparentemente calmo no início desta semana. A RUM falou com duas minhotas, uma a residir em Doha (Catar) e outra em Riade (Arábia Saudita). Ambas garantem que, apesar do receio de uma escalada no conflito, não pretendem, para já, abandonar a região.
Depois de um fim de semana atribulado, o som de explosões continua a ouvir-se em vários territórios do Golfo, especialmente nos que abrigam bases norte-americanas, pontos que a República Islâmica considera “alvos legítimos”. Embora as ruas estejam mais vazias e existam apelos ao recolhimento, a rotina mantém-se. Isto acontece mesmo enquanto os sistemas antiaéreos intercetam mísseis e complexos industriais, como refinarias e a estatal QatarEnergy, são atingidos.
Foi este o cenário descrito hoje por Elizabeth Barbosa, bracarense a viver na capital do Catar.
“Apesar de, obviamente, estarmos numa situação muito delicada, penso que as pessoas de alguma forma estão a manter a calma, também porque sabemos que a situação está a ser bem controlada e que, acima de tudo, a segurança pública e dos cidadãos está em primeira instância”
Em confinamento desde sábado, a rotina de Elizabeth sofreu apenas alguns ajustes, tal como o ritmo da cidade. Doha está mais calma, com grande parte da população em teletrabalho, mas a vida continua. “Existe a hipótese de sair, mas a maioria está em casa. Muitos estão a trabalhar a partir de casa”, explica.
Esta parece ser a opção mais prudente. Embora o Catar não seja o menor país da região, é um território pequeno onde tudo se concentra na capital, inclusive a maior base dos Estados Unidos na região. A Base Aérea de Al-Udeid, que abriga cerca de 10 mil soldados norte-americanos, fica a apenas 20 quilómetros da residência e local de trabalho da bracarense. Por isso, as explosões têm sido audíveis nos últimos três dias.
“Todas as manhãs ouvimos mísseis a serem abatidos sobre esta parte da cidade. Nos últimos dois dias tem sido só de manhã e, pelo que tenho lido, o combate acontece no mar. Não temos sentido tanto em terra e é por isso que digo que a situação está controlada.”
Regressar a Portugal não é, para já, uma opção. A falta de indicação do governo catarense ou sinais de pânico na população levam-na a aguardar. Garante ainda que outros portugueses com quem mantém contacto “não estão a pensar nisso neste momento”.

Também Raquel Faria, a viver em Riade, na Arábia Saudita, há dois anos, afasta o cenário de regresso. A 500 quilómetros de Doha, num país consideravelmente mais extenso, a limiana assegura que “o ambiente está exatamente igual ao que estava antes”.
Não se trata de uma mera impressão ou alheamento: a portuguesa questionou os colegas sauditas sobre o conflito.
“Isto é só mais uma situação menos boa, não há qualquer pânico, não há qualquer medo, eles mostram uma tranquilidade que, para nós ocidentais, é um bocadinho estranha.”
A trabalhar para o governo saudita, Raquel garante que “nada parou”, exceto as escolas internacionais que tentaram adotar o ensino online, mas que entretanto reabriram instalações. No sábado, Riade foi alvo da retaliação iraniana e, esta segunda-feira, uma refinaria a 400 quilómetros da cidade foi novamente atingida, mas a portuguesa assegura não se ter apercebido de qualquer explosão.
Embora não seja “imune ao receio”, a calma explica-se pela falta de comunicados oficiais, pela barreira linguística e pela postura dos locais durante o Ramadão.
Embora não seja “imune ao receio”, a calma explica-se pela falta de comunicados oficiais, pela barreira linguística e pela postura dos locais durante o Ramadão.
“Há uma sensação de segurança muito séria neste país. Os locais ouvem o que lhes é transmitido, aceitam e acreditam. Depois, há a componente religiosa: acreditam que o que tiver de acontecer, acontecerá, e que serão protegidos por Deus.”
O mesmo não se aplica aos amigos e familiares em Portugal, que vivem um medo que não se sente localmente.
“Há muita desinformação e um pânico a gerar-se que nós aqui não sentimos”, assegura Raquel.
Governo está atento à comunidade portuguesa na região
A tensão sente-se de forma desigual na região. No Dubai e em Abu Dhabi, zonas residenciais e turísticas foram marcadas por mísseis e drones. O Aeroporto Internacional do Dubai e o Aeroporto Zayed (Abu Dhabi) foram atingidos, resultando numa morte e vários feridos, além da evacuação de locais emblemáticos como o hotel Burj Al Arab.
Ainda assim, o ambiente geral aparenta tranquilidade. O Ministério dos Negócios Estrangeiros português tem acompanhado a situação, informando via redes sociais sobre a retoma de voos no Dubai.
Tanto Raquel como Elizabeth notam este apoio do Governo, que chega aos milhares de portugueses na diáspora através de grupos online.
É nestas plataformas digitais, onde se multiplicam avisos de segurança e pedidos de auxílio, que estas minhotas percebem a real dimensão do que se passa nos países vizinhos, especialmente no Bahrain, onde os ataques têm sido mais intensos.
Durante a noite, esta terça-feira, a embaixada dos EUA em Riade sofreu um ataque de dois drones provocando um incêndio “de baixo impacto”. Também Doha foi atacada por volta das 01H30 mas o incidente foi “resolvido rapidamente”. A RUM mantém-se em contacto com Raquel Faria e Elizabeth Barbosa.
