Discurso de Seguro. Da “firmeza com governo” à “expetativa favorável à estabilidade”

José Palmeira, politólogo e docente de Ciência Política da Universidade do Minho analisou na RUM os resultados das presidenciais e o discurso do presidente eleito, António José Seguro.

José Palmeira, politólogo da Universidade do Minho afirma que António José Seguro conseguiu “um resultado muito bom” num contexto particular em que o risco de desmobilização dos eleitores não se concretizou, fosse pelo mau tempo, como pelo facto de as sondagens “darem um distanciamento muito grande entre os dois candidatos”.

Ainda que a abstenção tenha rondado os 50%, o docente da academia minhota lembrou que a abstenção em presidenciais é tradicionalmente superior às legislativas.

O discurso após a vitória histórica de António José Seguro não começou pela votação, mas sim pelas vítimas da catástrofe natural que afetou o país. José Palmeira admite que a firmeza de Seguro poderia não ser assim tão óbvia para o momento.

“O discurso de António José Seguro foi bastante firme com o Governo. Se calhar não se estava à espera que ele entrasse de uma forma tão firme pedindo ao Governo resultados, dizendo que aquilo que são promessas têm que, na prática, ser consequentes, têm que se efetivar e que o próprio futuro Presidente vai acompanhar esse processo, portanto mostrou firmeza, mas simultaneamente mostrou aquilo que se esperava já de António José Seguro”, detalhou.

Por outro lado, o espírito de colaboração foi reafirmado pelo sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, incluindo a menção ao Governo para “que cumpra o seu mandato até ao fim”.

“Ele de certa forma está a dizer que não quer crises políticas e o facto do Presidente ser de uma área política diferente do Governo, que é o Partido Socialista, poderá significar que o Presidente poderá exercer alguma influência, quer junto do Partido Socialista, quer junto do Governo, para que não haja crises políticas, por exemplo, no momento da aprovação dos orçamentos”, prossegue. Por essa razão sustenta que António José Seguro apresenta “alguma expectativa favorável à estabilidade governativa”, algo que tem faltado nos últimos anos.

José Palmeira acrescenta que o primeiro discurso de António José Seguro indica que será um Presidente da República “muito exigente, que quer reformas”, apresentando uma postura que pode acelerar o processo de mudança que o país precisa em áreas como educação, saúde, justiça e habitação.

“Se o Presidente da República puder aí desempenhar algum papel, quer a pressionar, quer a mediar, isso pode ser positivo, porque nunca nos podemos esquecer que o Governo tem um apoio minoritário no Parlamento, depende das oposições e, nestas circunstâncias, Belém pode ter um papel relevante caso ele próprio se envolva junto das partes. Não tem poderes executivos, mas tem o poder da palavra, tem a magistratura de influência e, nesse sentido, pode exercê-la”, antecipa.

Sobre a votação de André Ventura, “apesar de tudo também foi expressiva”, dado que aumentou o número de votos face à primeira volta, números que como já seria expectável, o candidato derrotado “vai tentar capitalizar em termos legislativos, reforçando a sua oposição ao Governo no Parlamento”.

Aliás, Palmeira aponta como possibilidade um aproveitamento de André Ventura às críticas que estão a ser feitas ao governo na gestão dos efeitos da tempestade para apresentar uma moção de censura. “Existe a possibilidade de apresentar uma moção de censura para, com isso, mais uma vez, tentar colar o PS ao Governo e ele evidenciar que é de facto o líder da oposição”, conclui.

Nunca em democracia tantos eleitores tinham votado num presidente com António José Seguro a ultrapassar a melhor marca, que pertencia a Mário Soares.

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Elsa Moura
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Carolina Damas
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