Darco, o cão terapeuta que combate a exclusão social na Cáritas de Braga

Desde o início do ano que a Cáritas de Braga recebe, todas as semanas, um cão-terapeuta que se dedica ao combate do isolamento e à promoção do bem-estar das pessoas mais vulneráveis. O projeto-piloto, desenvolvido pela associação 'Animal Resort' e o santuário animal 'Vida Boa' já começa a surtir efeito, mas a sua continuidade exige financiamento.
Reportagem áudio 'Darco, o cão terapeuta que combate a exclusão social na Cáritas de Braga':

É segunda-feira e o relógio marca 09h30. Na pequena receção da Cantina Social da Cáritas Arquidiocesana de Braga juntam-se algumas pessoas que vão ocupando as cadeiras que delimitam a sala.

O dia começa com a primeira refeição quente da semana. Mas o plano podia ser admirar Darco trabalhar, tal é a intensidade com que toda a sala se concentra no animal.

Enquanto isso, o cão terapeuta está totalmente focado na tarefa: brincar. Ora com a bola, ora sem ela… em cima da mesa ou debaixo dela. A bola sai do chão e é apanhada no ar, instantaneamente. Momentos depois, é largada aos pés de quem estiver mais perto e de quem estiver preparado para voltar a brincar.

Todos brincam com o Darco, sem exceção. Este é, sobretudo, um momento lúdico, “que traz alguns benefícios”, começa por explicar Sílvia Sousa, psicóloga do santuário animal ‘Vida Boa’.

Podia ser uma sessão de terapia, porque há um plano e uma equipa multidisciplinar a todo o momento, mas o objetivo destas sessões “é proporcionar momentos lúdicos às pessoas, em que elas possam brincar, relaxar” e sensibilizá-las para o bem-estar animal.

“Um cão brinca com qualquer pessoa, não importa a idade que ela tem, qual é a condição, ele quer é brincar”.

Darco, o cão terapeuta

Primeiro turno: “Às vezes, mais valem os animais que certas pessoas”

É este sentimento de solidão que António Leite consegue esquecer, por momentos, quando brinca com Darco. Neste dia, como não esperava ver o animal ali, deu-lhe mais atenção do que o normal. No segundo em que tira os olhos do cão, conta que “as brincadeiras com o bicho” só lhe fazem bem e que o gostava de ver mais vezes ali.

“Sou uma pessoa que não faz mal aos bichos” e, se dúvidas houvesse, revela ainda que já foi dono de 15 cães e 12 gatos com quem partilhou “uma casa pequenina” até ao dia em que os teve de devolver ao canil.

Enquanto espera pelo pequeno-almoço, António Leite brinca com Darco

Alternando entre um afago e uma ordem, Isabel Cortesão, outra utente da Cantina Social, assume que estes momentos só lhe trazem “alegria, conforto e paz” e acrescenta: “às vezes mais valem os animais que certas pessoas”.

E bem se vê que adora o Darco porque imediatamente se pôs a disputar a atenção do animal com outra senhora que a acabara de ganhar.

O Darco dá atenção às duas e vai preenchendo todos os espaços – literais e metafóricos – como é o caso do vazio da viuvez ou o da distância dos filhos emigrados que uma terceira senhora, que não quis ser identificada, assume.

O pequeno espaço tão depressa enche como fica vazio, mas Darco não descansa. Corre de um lado para o outro, sempre debaixo de olho de Hugo Durão, que o vai mimando com um biscoito sempre que obedece a uma ordem.

Ainda que as pessoas estejam no centro da atividade, não são as únicas a ser tidas em conta durante as sessões. A segurança e o bem-estar do animal é um dos princípios pelos quais Hugo Durão rege estas atividades. “Trabalhamos com comida ou com afeto, que ele valoriza muito. Não trabalhamos com repreensão, nós não somos maus com ele, antes pelo contrário”, sublinha.

O treinador vai distribuindo biscoitos pelas pessoas que restam na sala, mas pede que, em primeiro lugar, mandem o Darco fazer algum truque ou apanhar a bola. Uma simples tarefa como esta contribui muito para o objetivo da iniciativa, assegura a psicóloga Sílvia.

O biscoito favorito de Darco

“Este temperamento, esta personalidade, tem a capacidade de trazer ao de cima o melhor de nós. Convida à conversa, à partilha, e cria um momento que afasta as pessoas um bocadinho daquilo que pode ser o problema central da vida delas”, acrescenta.

Além disso, este é um processo que funciona bem porque cada um sabe o seu lugar e existe uma espécie de sinergia, “que se vai ganhando ao longo do caminho”.

“A ideia é que eu possa estar só preocupada com as pessoas, e se estamos a conseguir falar sobre as coisas que têm que ser faladas, sem estar preocupada com o Darco. E o Hugo, a mesma coisa, mas ao contrário”.

Projeto necessita de financiamento para continuar

Para além da Cantina Social, que no último ano confecionou cerca de 30 mil refeições, a Cáritas de Braga disponibiliza serviços de balneário e roupeiro, bem como bancos de alimentos e de material médico. A instituição desenvolve ainda programas focados no bem-estar e segurança física e psicológica de pessoas migrantes, em situação de vulnerabilidade e casos urgentes.

Criado há quatro anos, o Centro de Acolhimento de Emergência (CAE) para vítimas de violência doméstica é a única estrutura do tipo no distrito de Braga. Atualmente com lotação esgotada, o espaço presta apoio a 25 pessoas com alojamento imediato, transitório e sigiloso e acompanhamento jurídico, psicológico e social.

É na rápida mudança de vida destas pessoas que o carácter emergencial deste projeto se revela mais inquietante, por isso, o trabalho “para estabilizar, dar equilíbrio e harmonia” a estas mulheres, crianças e jovens é tão importante.

Ainda que a Cáritas de Braga já possua programas de apoio psicológico e social, incluídos até na Rede Nacional de Apoio à Vítima de Violência Doméstica (RNAVVD), a abertura a estas atividades “faz todo o sentido”.

De acordo com Eva Ferreira, diretora técnica da instituição, não só “é muito mais fácil, na maior parte dos casos, chegar às pessoas através de formas alternativas” como, especialmente nestes casos de violência doméstica, o animal torna-se “um facilitador” na criação de laços, de relações saudáveis, que são tão necessários para estas pessoas.

Eva Ferreira explica que o acolhimento com Darko é feito de uma forma diferente

Até ao momento já foram realizadas três sessões de um total de cinco, a custo zero para a Cáritas, mas a continuidade do projeto exige financiamento ou uma parceria que cubra as despesas com transporte, recursos humanos, e os protocolos de saúde dos cães “que são muito mais apertados que os de um cão de companhia”, sublinha Hugo Durão.

A história de Darko também serve um propósito

O Darco é também um caso especial de resiliência. Foi recolhido da rua, depois de ter sido abandonado, atropelado e ter a cauda amputada, mas só chegou aos cuidados de Hugo Durão, mais tarde, depois de uma adoção que não foi até ao fim.

“Podia ter sido um cão selecionado de uma determinada forma”, mas foi este percurso e “algumas características válidas” que o treinador viu em Darco para que que pudesse fazer este tipo de trabalho: “Não ser agressivo, ser tolerante, ter muita vontade de aprender e de interagir”, enumera.

Equipa multidisciplinar inclui Darco, treinador Hugo Durão e psicóloga Sílvia Sousa

De certa forma, também este percurso serve um propósito nestas sessões. “O paralelismo com a vida de algumas pessoas é muito importante para a aceitação e para haver aqui alguma normalidade”, diz.

Projeto começa brevemente na Quinta Pedagógica

Este é apenas um dos projetos que a associação ‘Animal Resort’ e o santuário animal ‘Vida Boa’ têm no terreno.

O ‘Socialmente’, apoiado pela Portugal Inovação Social, está pensado para jovens, entre os 13 e os 29 anos, com perturbações psiquiátricas. As sessões são desenvolvidas em contexto hospitalar e extra-hospitalar, na Unidade Local de Saúde (ULS) de Tâmega e Sousa, na ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro e brevemente na Quinta Pedagógica de Braga, com o apoio da ULS de Braga.

Sílvia Sousa explica que, embora as intervenções sejam feitas maioritariamente em grupo, os planos são aplicados individualmente. Neste casos, Darco é um meio entre o diagnóstico e o objetivo.

Hugo Durão explica situações onde cão pode ajudar a estimular a participação do paciente

Segundo turno: “pediu para escrever o meu nome e o dele e escreveu amigos no rodapé”

Entre agosto e setembro de 2025, foram acolhidas na RNAVVD 794 mulheres, 670 crianças e 22 homens, de acordo com os dados divulgados no Portal da Violência Doméstica.

Ainda que não exista indicação oficial (ou recente) do número de crianças em contexto de violência doméstica, é certo que também estes são considerados vítimas pelo Estatuto de Proteção do Menor, o que lhes confere os mesmos apoios e direitos que a vítima adulta.

No primeiro semestre de 2025, a CAE da Cáritas de Braga acolheu 122 vítimas, das quais 62 eram menores acompanhantes. No mesmo período, a instituição atendeu 52 novos casos de crianças e jovens vítimas de violência doméstica, quase o dobro do valor registado no período análogo de 2024.

O relógio marcava 10H15 quando desembocaram na receção quatro crianças – coincidentemente ordenadas por tamanho – a da frente um pouco maior que a de trás e no fim, a mãe. A receção, outrora silenciosa, não demorou muito até encher-se de risos graças ao Darco.

Hugo e Sílvia dividem a atenção entre as quatro crianças e a conversa recai sobre os temas de autocuidado e regulação emocional, referidos numa sessão anterior. Apesar do carácter lúdico das atividades, Sílvia Sousa frisa a importância de um “plano estruturado e adequado ao público-alvo” e de ter objetivos claros para as atividades com o Darco.

Sílvia Sousa dá exemplo de exercício em que usa o Darco

“Todos nós temos necessidades básicas, de alimentação, fisiológicas, de sono, e todos nós temos necessidades de pertença e de realização e de bem-estar. Os cães também.”

O momento segue intercalado por conversas paralelas. Um menino que saiu do centro, o pequeno-almoço que acabaram de tomar e a vontade súbita de ter um cão – situação que deixa a mãe comicamente em alerta. “Já tem muita criança”, diz.

Aproxima-se a hora da sessão no CAE. Hugo Durão segura Darco pela trela mas logo permite às duas meninas que o conduzam para fora do espaço. No colo, carrega o menino mais pequeno e na outra mão passa a segurar o guarda-chuva, que por pouco protege a psicóloga Sílvia, o segundo menino, e a mãe deles todos.

Num contexto em que a exclusão social se vive muitas vezes em silêncio, a presença de Darco lembra que o cuidado também pode ser simples. Na próxima hora, o grupo visita o CAE para completar mais uma sessão da terapia com o cão terapeuta.

A RUM não teve acesso ao abrigo por motivo de salvaguarda da privacidade dos moradores.

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José Brás
José Brás

Jornalista na RUM

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