Isabel Estrada Carvalhais: ataque dos EUA ao Irão é improvável e tese da Gronelândia “desmontável”

A tentativa dos Estados Unidos de “reescreverem a ordem internacional” não deverá passar por uma ofensiva militar contra o Irão. A convicção é da antiga eurodeputada Isabel Estrada Carvalhais, que aponta que Washington não tem interesse em desestabilizar uma região onde mantém fortes laços económicos e comerciais com estados vizinhos.
Após o encerramento do espaço aéreo iraniano na última quarta-feira, a diplomacia internacional moveu-se para travar uma escalada de violência. Aos microfones da RUM, Isabel Estrada Carvalhais defende que qualquer ação na região “não seria apenas um problema para o Irão, seria para um conjunto de estados vizinhos”.
Na quinta-feira, a Casa Branca afirmou que Teerão teria cancelado cerca de 800 execuções de manifestantes detidos durante os protestos antigovernamental, o que teria ajudado a baixar a tensão entre os dois países. Já no Irão, as autoridades locais declararam ter “cravado o último prego no caixão do terrorismo”, apesar de relatos de milhares de mortos e feridos, em protestos contra a situação político-económica no país.
A “frente desnecessária” da Gronelândia
Embora Donald Trump insista que o controlo da Gronelândia é uma prioridade de segurança nacional, Isabel Estrada Carvalhais oferece uma leitura distinta: o interesse de Washington é “meramente económico”e a retórica de segurança nacional é “desmontável”, na sua ótica.
A ilha que pertence à Dinamarca, vai receber nos próximos dias o reforço de tropas, entre outros, de França, Alemanha, Noruega e Suécia. Essa movimentação tem escalado a tensão entre os EUA e os restantes países da NATO.
Para a docente da Universidade do Minho, esta é apenas mais uma frente onde a administração Trump testa uma lógica de “tudo ou nada”, ignorando décadas de cooperação militar estável na região, em que a “Gronelândia nunca se negou a cooperar estreitamente com os Estados Unidos”.
Recorda ainda que o norte-americanos tem tido uma presença militar constante no território e que se tivessem interesse em aumentar a influência sobre o território, poderiam “trabalhar o apoio à causa independentista, ajudando, por exemplo, na realização de um referendo, isto numa situação limite”, sublinha.
Além disso, a antiga eurodeputada alerta que a abordagem de Trump, ao utilizar uma “linguagem de anexação e compra”, típica de séculos passados, causa uma resposta prejudicial aos interesses americanos e europeus, inclusive na tentativa de conter a influência da China naquela região, que continua a conquistar apoios de forma discreta na região do Ártico. Para a investigadora, esta posição imediatista de Donald Trump ignora questões vitais de longo prazo, como a emergência climática na região, que chama de “umbigo do mundo” .

União Europeia: Inteligência perante a escassez de força
Num cenário de crescente pressão entre potências como a Rússia, a China e os EUA de Donald Trump, Isabel Estrada Carvalhais alerta que a União Europeia tem tido uma “vida muito dificultada”, mas elogia a posição adotada por Bruxelas em demonstrar uma diplomacia “extremamente resiliente e inteligente”.

“Não vejo capacidade de dar um murro na mesa, mas continua a ser um ator apetecível, um espaço de paz e de alguma prosperidade”
— Isabel Estrada Carvalhais
A especialista reconhece que esta postura pode levar a União Europeia não conseguir “afirmar-se como tal ator global do ponto de vista político e económico”.



