Do mar para o laboratório: Diana Ferreira transforma redes de pesca e algas no “novo algodão” da indústria têxtil

O mar português sempre foi sinónimo de alimento e lazer, mas para a investigadora e docente Diana Ferreira, do Departamento de Engenharia Têxtil da UMinho, o oceano é o laboratório do futuro. No âmbito de várias agendas estratégicas do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), como o Pacto da Bioeconomia Azul, a investigadora está a transformar o que antes era considerado lixo marinho em matérias-primas de alto valor acrescentado.
O mar como fonte de matéria-prima sustentável
A ideia de que o mar pode ser o “novo algodão” da indústria não é apenas uma metáfora. O trabalho de Diana Ferreira foca-se no reaproveitamento de redes de pesca abandonadas para o desenvolvimento de novos fios e malhas.
“Estamos muito focados no reaproveitamento das redes de pescas antigas para o desenvolvimento de novos fios para novas malhas e tecidos e assim desenvolver novos sistemas fibrosos para a moda mais sustentável.”
“Conseguir que as coisas que desenvolvo ao nível laboratorial consigam chegar a uma aplicação industrial é a grande driving force do meu trabalho.”
Diana Ferreira
Ciência à escala nano: do sargaço aos tecidos inteligentes
Utilizando tecnologias como a eletrofiação (electrospinning), a equipa consegue extrair alginato de sódio de algas como o sargaço para produzir nanofibras. Estas tecnologias permitem que o têxtil deixe de ser “passivo” e passe a ser “ativo”, com propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas.
Inovação que salva vidas
Para além da moda, a investigação tem um forte impacto na área biomédica. As membranas desenvolvidas no centro 2C2T podem ser aplicadas em contextos clínicos complexos, funcionando como sistemas de entrega de fármacos.
“Podemos utilizar estas membranas como pensos curativos e podemos utilizar também estes dispositivos dentro do corpo como sistemas de entrega localizada de fármacos, no caso da terapia fotodinâmica do cancro, por exemplo.”
Antecipar o “choque legislativo” europeu
Com a União Europeia a preparar regulamentações mais apertadas sobre a reciclagem, o trabalho na UMinho funciona como um escudo para as empresas. Ao trabalhar diretamente com parceiros como a TMG, a academia garante a competitividade do setor.
“Temos que estar preparados e estamos realmente a trabalhar com as nossas empresas parceiras para que, quando essas regulamentações estejam em prática, nós já tenhamos grandes porcentagens de material reciclado incluído em cada material.”
Para Diana Ferreira, o papel da academia é também pedagógico: “Nós somos responsáveis por mudar mentalidades. Temos que utilizar o mínimo de recursos possíveis, todos estes conceitos têm de estar na cabeça dos alunos desde o primeiro dia.”
Sobre a investigadora
Diana Ferreira é investigadora no 2C2T (Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil) e docente no Departamento de Engenharia Têxtil da Escola de Engenharia da Universidade do Minho. Química de formação, dedica a sua carreira à interface entre a ciência dos materiais e a engenharia têxtil avançada.
Atualmente, coordena a participação da UMinho em cinco grandes agendas mobilizadoras do PRR:
- Pacto da Bioeconomia Azul (Liderado pela TMG);
- GIATEX (Gestão Inteligente da Água no Têxtil);
- Lusitano e BIT (Focados em economia circular);
- BioSource for All (Sustentabilidade no setor do calçado).
Natural de Espinho, Diana Ferreira alia as suas raízes ligadas ao mar à investigação de ponta, sendo uma das vozes líderes na transição de Portugal para uma economia têxtil descarbonizada e de alto valor tecnológico.
A entrevista de Diana Ferreira ao UMinho I&D pode ser ouvida na íntegra.
