Há discos que possuem algo de mágico, etéreo, que se nota nos primeiros instantes de audição. Foi assim com "Tragedy", primeiro álbum de originais propriamente dito de Julia Holter - antes, já tinha lançado uma série de EP's, cassetes e registos ao vivo - e também o é com "Ekstasis", o seu segundo trabalho, lançado no início deste ano.
Embora aparentemente mais acessível, "Ekstasis" mantém o teor rendilhado e barroco das composições também presente em "Tragedy", numa obra marcada por uma flutuação por entre o instrumental e o avant-garde, sempre com a pop como fio condutor. Apesar da elevada craveira em termos académicos e artísticos - Holter tem uma sólida formação musical, sendo que "Tragedy" é um álbum conceptual baseado em Hipólito, de Eurípedes - o seu estilo de composição é, como confessou em entrevista recente ao Ipsilon, profundamente instintivo, optando a compositora por deixar-se ir no processo de gravação (que, a título de referência, foi também feito sem grandes artefactos de estúdio).
"Ekstasis" tem então um toque de acessibilidade que escapa, numa primeira audição, a "Tragedy". À menção constante aos dois trabalhos não é alheio o fato de ambos terem sido gravados na mesma altura, sendo curioso a opção de Holter de lançar o álbum mais… difícil em primeiro lugar para, em 2012, apresentar a sua faceta mais pop. Eventuais paradoxos à parte, "Ekstasis" é um disco requintado e de uma beleza rara, que merece uma audição mais cuidada. Quem sabe não fica a vontade de ir mais além e ouvir também "Tragedy"?
Ricardo Carvalho